Estudante passa por tribunal racial e não é considerado pardo o suficiente

O estudante Yehudi Henrique de Moraes de 18 anos conseguiu a aprovação em seu curso de preferência na UFPR mas não pôde fazer a matrícula por um motivo bastante curioso, ele foi avaliado pelo tribunal racial da universidade e não foi considerado pardo o bastante para ingressar na universidade.

O estudante goiano nem ao menos solicitou a política de cotas, a universidade o desqualificou apenas por não aceitar a autodeclaração do garoto, que se considera pardo.

A família está recorrendo na justiça.

Deduções Filosóficas – O significado dos termos

Já se viu perdido durante um debate filosófico com um anarcocapitalista? Se sua resposta for sim, este artigo tem o objetivo de te ajudar, fornecendo uma breve explicação sobre o significado dos termos mais utilizados. Bom estudo!

Por: Alexandre Porto

Primeira Edição, 2018)

– Filosofia

A filosofia é o estudo dos conhecimentos a priori (que não dependem de experiência).

Vamos começar da posição de incerteza, para encontrar um ponto de partida e alcançar algum conhecimento certo.

Nenhuma pressuposição não justificada será feita neste texto. Apenas verdades que possam ser demonstradas (provadas) podem ser aceitas neste estudo, e não hipóteses.

Mesmo sem nenhum conhecimento prévio, podemos saber que qualquer coisa que se diga com significado é uma afirmação ou negação, ou seja, uma proposição.

– A Proposição (Teoria Proposicional)

A unidade indivisível de linguagem com significado é a proposição. Em outras palavras, a unidade de linguagem que afirma ou nega algo é a proposição. Toda afirmação e toda negação é uma proposição.

— Do que a proposição se constitui?

Proposições se constituem de conceitos interligados entre si.

O conceito é a referência que a mente faz a uma coisa.

Conceito é a unidade de referência.

Sentença é um arranjo (configuração) de conceitos.

Conceitos interligados entre si de uma forma específica se dividem entre proposições e nonsense.

Nonsense é uma sentença sem valor-verdade.

A proposição é um grupo de conceitos interligados com significado.

Toda proposição tem valor-verdade.

Toda proposição deve seguir as leis da lógica, caso contrário, ela não pode ter um valor-verdade e, portanto, não pode ter um significado, já que todo significado depende do valor-verdade. Tentar fazer uma proposição sem defini-la como verdadeira ou falsa é o mesmo que não fazer uma proposição, pois nada está sendo afirmado ou negado.

Dizer “está chovendo” sem que fosse uma afirmação ou negação seria o mesmo que dizer “está chovendo ou não está chovendo”. Isso não é uma proposição, pois não afirma ou nega nada.

Da mesma forma, conceitos que não formam uma proposição não dizem nada. Se eu disser “maçã”, eu não disse nada. Porém, dizer que uma maçã específica está em cima de uma mesa específica é fazer uma proposição, que então pode ser verdadeira ou falsa.

Da mesma forma, a tautologia, em que se afirma um predicado que já estava contido no sujeito da sentença (configuração de conceitos), é um tipo de nonsense.

Isso, porém, não necessariamente dita a forma de comunicação expressa que transmite significado. Pois eu posso falar “maçã”, e querer dizer “me dê uma maçã”, que também pode ser entendido na forma de proposição “eu quero que você me dê uma maçã”, ou “eu ficarei chateado se você não me der uma maçã”, etc. O importante é que o significado depende de proposições, mesmo que essas proposições estejam implícitas e subentendidas na linguagem expressa.

Se eu não pudesse escrever proposições, eu não poderia escrever nada com significado, e este texto, ou quaisquer objeções ao seu conteúdo, não teriam qualquer significado. Não importa o que eu escreva, eu preciso implicitamente reconhecer todas as verdades fundamentais de como a linguagem funciona, para que eu possa escrever qualquer coisa com significado.

Ou seja, a teoria proposicional a priori está pressuposta em toda linguagem, e portanto, qualquer tentativa de negá-la cai em contradição prática.

Isso não significa que uma forma de escrita ambígua, contraditória, vaga ou mística não tenha significado. Qualquer escrita pode ter significado, mas apenas na medida em que insinua conteúdos proposicionais, ainda que não explicitamente. Essa insinuação pode ter qualquer grau de clareza, desde totalmente vago e aberto a muitas interpretações, até uma clareza maior, onde fica claro um sentido mais restrito.

Quanto mais explícita a linguagem, mais restrita.

Uma linguagem expressa totalmente explícita seria aquela em que cada palavra corresponde estritamente a um conceito.

– Definição

Uma proposição precisa ser totalmente definida.

“O copo está em cima da mesa” não é uma proposição definida, pois a definição precisa incluir a localização espaço-temporal do copo e da mesa, ou seja, especificar que copo e que mesa. mas dentro de um contexto em que essa frase seja dita, pode estar implícito (evidente) qual copo e qual mesa, de forma que seja desnecessário especificar explicitamente.

Essa é a função das palavras “este”, “isto”, “aquele”, elas deixam implícita uma descrição que define precisamente algum elemento da proposição (e.g. que copo específico, dentre todos os possíveis). Essas palavras não têm significado explícito, apenas implícito.

Seria impraticável tornar explícita toda linguagem do dia-a-dia. Uma única expressão verbal pode insinuar centenas (ou mais) de conteúdos proposicionais implicitamente.

– Pseudo-linguagem

Ruídos, grunhidos e linguagem corporal que não sejam interpretados como conteúdo proposicional não se encaixam na definição de linguagem usada aqui.

Comunicação feita por inteligências artificiais não-conscientes também não pode ser considerada linguagem, pois todo conteúdo proposicional é consciente.

A inteligência artificial não-consciente funciona apenas pelas leis da física, sendo programada para funcionar de forma que pareça significativa quando interpretada por um ser consciente. Mas não há qualquer significado na comunicação pelo ponto de vista da IA. Nem sequer existe um ponto de vista na IA, pois esse ponto de vista depende de um observador, ou seja, da consciência.

– Lógica

A lógica é simplesmente a estrutura da linguagem. Regra que a linguagem não pode quebrar, e que se quebrada, faz com que a linguagem perca o significado.

As leis da lógica podem ser resumidas em duas:

A lei da não-contradição diz que uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Se ela é verdadeira, ela não é falsa, e se é falsa, não é verdadeira.

A lei do terceiro excluído diz que não existe meio termo ou terceira alternativa além de verdadeiro e falso. Só há dois valores-verdade, verdadeiro e falso, e toda proposição é verdadeira ou falsa.

Essas duas regras podem ser resumidas em apenas uma, a lei da lógica, usando-se o conceito de ou-exclusivo: “Toda proposição é verdadeira ou-exclusivo falsa”.

A lei da lógica pode ser dita na seguinte forma: “p xor ~p”.

Isso é o mesmo que dizer que toda proposição tem exatamente um único valor verdade (nem mais, nem menos), que só pode ser verdadeiro, ou falso.

Dizer que um pensamento é lógico significa simplesmente dizer que ele é coerente.

A lógica, assim como a matemática, não é uma convenção. Uma convenção é uma regra definida arbitrariamente, mas que poderia ser substituída por outra regra que cumprisse a mesma função. A lógica é uma regra necessariamente pressuposta em qualquer proposição, e não pode ser negada.

A essência da linguagem é o seu conteúdo, e não sua forma. O significado proposicional é o conteúdo linguístico.

– Intencionalidade e Referência

Intencionalidade é a característica de uma coisa se referir a outra coisa. Apenas estados mentais (estados de consciência) se referem a coisas. Coisas físicas (inconscientes) não se referem a nada, elas apenas interagem causalmente de forma natural (não-proposital).

Partículas físicas não se referem a nada, elas apenas se comportam de acordo com as leis da física. Apenas conteúdo mental se refere a algo. Proposições se constituem de conceitos, que são referências. Logo, todo conteúdo linguístico é mental.

– Verdade

A verdade é a correspondência do conteúdo da proposição à realidade, e a falsidade é a não-correspondência entre elas.

A realidade é o conjunto de coisas existentes no mundo (fatos) e das condições da sua existência.

Um conteúdo semântico (proposicional) é verdadeiro quando ele corresponde a como as coisas são, e falso quando não corresponde.

É a proposição que pode ser verdadeira ou falsa, não as coisas referidas nela.

Algumas pessoas acreditam numa “verdade” como algo que existe por si só, separado da mente e da linguagem. Isso é um erro de linguagem, que projeta algo que é simplesmente um elemento proposicional como se existisse fora da proposição: a verdade (ou falsidade) de proposições.

Alguns dizem “deus é a verdade”, ou “a verdade existe” (por si mesma), ou acreditam que a verdade pode ser alcançada “espiritualmente”, ou fora do âmbito da linguagem. Mas isso não faz sentido. Se a verdade pode estar fora de proposições, ou seja, se nada for afirmado ou negado, o que restaria que pudesse ser verdadeiro ou falso? Apenas uma proposição pode ser verdadeira ou falsa. E do que essa “verdade” se constituiria, senão da correspondência entre o conteúdo da proposição e aquilo a que ela se refere?

Os conceitos elementares, sem que formem uma proposição, também não podem ser verdadeiros ou falsos, como “mesa” ou “maçã”. Mas “esta maçã está em cima desta mesa”, uma proposição, é sempre verdadeira ou falsa.

Tampouco a realidade (o que existe) é verdadeira. O que pode ser verdadeiro, também pode ser falso. Qual o sentido de dizer que uma coisa que existe é verdadeira? Por acaso uma coisa que existe pode ser falsa? Qual a diferença entre dizer “x existe” e “x verdadeiramente existe”? Dizer que algo existe verdadeiramente não faz sentido (é nonsense).

Aquilo que existe (exceto proposições) não é verdadeiro nem falso, apenas existe. Uma proposição se refere a algo, e por isso essa referência pode corresponder ou não a algo real. Essa correspondência é que pode ser verdadeira ou falsa, e não a coisa em si separada da proposição.

– Existência

Existência é um quantificador na proposição. Não é um aspecto do mundo real e nem de substâncias, sujeitos ou objetos. Afirmar que algo existe significa simplesmente quantificar esse algo como sua quantidade sendo maior que zero no mundo.

O mundo é a corrente de todas as coisas causalmente interconectadas ao sujeito.

Dizer “x existe” ou “x não existe” é quantifcar x. Não existe uma coisa fora da linguagem que possa ser chamada de “existência”. A existência é apenas um conceito condicional à interpretação de fatos (experiência). Para que a mente identifique quaisquer estados de coisas (fatos) no mundo, ela os identifica em quantidades, inclusive na quantidade zero, quando a mente identifica algum estado de coisas como não-existente.

Logo, é errado afirmar que “A existência existe” seja um axioma. Essa frase não significa nada. Não existe uma coisa que possa ser chamada de existência além da própria característica de proposições quantificarem conceitos. Postular existência como propriedade de objetos ou do mundo é um erro de linguagem, um uso errado da linguagem.

– Consciência

Consciência é a característica de tudo que existe em primeira pessoa, no próprio observador. Os estados mentais (estados de consciência) podem se referir a algo e carregar significado, ao contrário dos estados físicos, que não se referem a nada e apenas seguem leis regulares naturais cegamente.

Proposições têm significado, e logo, são estados de consciência, ou seja, estados mentais.

Todo estado de consciência existe apenas em relação a um observador (o ser consciente). Logo, para que haja algum estado de consciência, deve haver um observador.

“Indivíduo”, “observador”, “mente”, “sujeito” e “ser-consciente”, como são usadas neste texto, são sinônimos.

A palavra “eu” também se refere ao sujeito, mas apenas ao próprio sujeito que faz a referência. As palavras “indivíduo, sujeito, etc.” podem se referir a outros sujeitos em terceira pessoa.

– Ação

Se uma proposição é feita conscientemente, então a proposição demonstra que a mente pode causar efeitos conscientemente.

A ação é a causa consciente.

Agir é causar um efeito conscientemente. Apenas seres conscientes podem agir. Comportamentos involuntários não podem ser considerados ações.

Agir é o mesmo que causar um efeito pela própria vontade, ou propósito.

Ação é comportamento propositado. Mas não é o comportamento do corpo ou de fenômenos sensoriais que define a ação. O que define a ação é que esse comportamento tenha sido causado pela decisão de um ser consciente (mente, eu).

Um pensamento, independentemente de estar relacionado com algum comportamento físico, também é uma ação.

Ação é a causalidade da mente, ou seja, do indivíduo consciente.

Agir é necessariamente usar um meio para alcançar um fim, é assim que a mente compreende a sua própria causalidade.

Ao agir, a mente escolhe o desejo mais valorizado que ela acredita poder alcançar através da ação, e escolhe o meio que acredita ser mais eficiente para isso.

O que causa a escolha de meios e fins são as crenças do indivíduo.

Alcançar um fim é produzir um estado de coisas.

Um estado de coisas (fato) é um arranjo de sujeitos e objetos.

O mundo se constitui de todos os estados de coisas causalmente interligados ao sujeito.

A realidade se constitui de sujeitos e objetos.

A mente nunca pode saber a totalidade de estados de coisas, pois todo conhecimento sobre eles é indutivo, adquirido através de fenômenos.

Categorias da ação são a estrutura básica necessária e condicional a toda ação. Todas as categorias da ação precisam existir para que a ação exista.

Como toda proposição é uma ação, as categorias da ação estão pressupostas em toda proposição.

Por isso, para se tentar negar as categorias da ação, elas precisam estar pressupostas na negação, logo a negação delas resulta numa contradição, demonstrando sua existência.

– Categorias da ação

Categorias da ação são os conceitos implícitos e necessários para ações.

— Crença

Crença é o pensamento, ou a tendência de um indivíduo pensar que uma certa proposição seja verdadeira, ou que uma certa proposição seja falsa.

Um pensamento que não seja uma crença é um pensamento cético, onde o indivíduo acredita não saber o valor-verdade de uma proposição.

Crer é ter um pensamento com valor-verdade definido, e duvidar é ter um pensamento cético.

Crenças pressupõem linguagem, pois são conteúdos proposicionais. A ação é causada por crenças, e a linguagem pressupõe a ação, pois fazer uma proposição é uma ação.

A linguagem pode ser implícita. Uma mente pode conceber um conteúdo proposicional mesmo sem formular formalmente a proposição usando um idioma.

— Desejo

Desejo é a crença de que um estado de coisas traria satisfação ao próprio indivíduo.

— Indução

A indução é a crença de que o mesmo tipo de causa resulta no mesmo tipo de efeito, causas semelhantes tendem a resultar em efeitos semelhantes, e efeitos semelhantes tendem a resultar de causas semelhantes.

— Fim

Fim é o desejo mais valorizado que a mente acredita poder satisfazer através da sua próxima ação. Toda ação visa alcançar o fim.

— Meio

Meio é um estado de coisas que a mente acredita que pode alterar, resultando em estados de coisas desejados.

A mente toca o meio (altera sua configuração) apenas quando acredita que isso resultará na satisfação do seu desejo.

O indivíduo escolhe usar um meio se e somente se ele acredita que isso (provavelmente) causará o efeito mais desejado que ele pode causar.

Todos os meios da ação são escassos. Se os meios de uma ação não fossem escassos, o fim poderia ser alcançado instantaneamente, e não haveria ação. A necessidade de agir depende da escassez dos meios necessários para alcançar fins.

Recursos intelectuais, como receitas e conhecimentos usados na ação não são meios, mas sim o papel, computador, pessoa, etc que os têm registrados. O meio de registrar uma ideia sempre é escasso, mas a ideia em si não é escassa, pois pode ser reproduzida infinitamente, enquanto houver meios de reproduzi-la.

— Intenção

Intenção é o desejo de agir no futuro para alcançar um certo fim.

— Causalidade (física e mental)

A ação é a alteração causada pela vontade da mente em um estado de coisas. Ou seja, pressupõe uma causa consciente de um efeito.

A ação pressupõe causas inconscientes (físicas) também, pois elas limitam a ação, e sendo as coisas físicas escassas, o indivíduo sempre tem desejos não-satisfeitos, e tenta alcançá-los alterando os fatos pela sua vontade.

— Existência (Quantificação)

Toda ação pressupõe a ideia de existência, que é a quantificação de uma coisa no mundo.

Em toda ação, o indivíduo considera que seu meio existe, e será alterado para produzir o fim, e que o fim não existe e passará a existir depois da ação.

Logo, são condição necessária de toda ação os conceitos de existir, vir a existir, não existir, deixar de existir. Esses conceitos de existência (quantificação), também podem ser representados, respectivamente, como 1, +1, 0 e -1.

— Valor (Preferência)

O indivíduo valoriza seus desejos em uma escala, desde o primeiro mais valorizado, o segundo, etc. e escolhe o desejo mais valorizado que ele acredita poder conseguir através da ação como o fim da sua ação.

Da mesma forma, o indivíduo valoriza os meios que ele acredita poderem levá-lo ao seu fim em uma escala de preferências, e escolhe o meio que ele acredita ser mais eficiente em alcançar seu fim.

— Escolha

Escolha é a determinação de uma dentre várias alternativas.

Toda causa consciente (comportamento consciente), portanto toda ação, é uma escolha.

Toda escolha é por usar meios para alcançar fins. Toda escolha envolve a renúncia a outros desejos em prol dos escolhidos.

A decisão que a mente toma é determinada pela sua escala de preferências. A mente sempre escolhe o desejo mais valorizado que acredita poder alcançar com a sua próxima ação como o fim da sua próxima ação, e sempre escolhe a forma que acredita ser mais eficiente de alcançar o fim como o meio da sua próxima ação.

Logo, toda escolha é causalmente determinada por crenças.

A mente não pode tomar a decisão de não agir, pois essa decisão seria uma ação.

Logo, uma mente capaz de agir sempre age.

— Sucesso e Fracasso

A ação é bem sucedida quando os meios alcançam o fim e quando o fim traz satisfação, e fracassada quando uma dessas duas condições não acontece.

Como toda ação encontra obstáculos na forma da escassez dos meios, não pode haver um ser onipotente que age, caso contrário, ele alcançaria todos os seus fins instantaneamente, e não haveria ação.

Como toda ação depende de indução sobre fatos, toda ação é incerta em algum grau, e portanto, toda ação é falível.

A ação é sempre falível de duas formas, na possibilidade de não se alcançar o fim através dos meios (fracasso da indução) e a de não se obter satisfação do fim alcançado (fracasso do desejo).

Sucesso é relativo ao observador, pois depende do conceito de finalidade.

Funcionalidade é a eficiência de um meio em alcançar um fim, logo funcionalidade é relativa ao observador.

Logo, não existe funcionalidade na natureza. As ciências naturais podem se referir a funcionalidades naturais apenas em relação a uma finalidade definida por um observador.

Logo, função não pode ser a causa do observador. Isso refuta o funcionalismo (hipótese de que funcionalidade causa a mente ou estados mentais).

— Satisfação

Todo desejo busca a satisfação, todo fim da ação é a realização de um desejo.

A satisfação plena é impossível, pois o indivíduo não poderia ter mais desejos, e portanto não agiria.

— Espaço

A estrutura do entendimento da mente sobre a configuração de objetos (estados de coisas físicos) se chama espaço.

A mente apenas pode conceber um estado de coisas físico (configuração de objetos) dentro da categoria de espaço.

Logo, toda ação sobre objetos depende de experiências dentro da categoria de espaço.

O espaço não é percebido diretamente pelos sentidos, mas é uma estrutura subjacente na interpretação de todos os dados sensoriais.

— Demonstração do status condicional, a priori e interno do espaço

O espaço é inteligível apenas em medidas, e medidas são matemáticas (quantitativas).

A matemática é interna (mental), e não externa (perceptível pelos sentidos).

Se o espaço fosse externo, a matemática seria externa.

Logo, o espaço é interno, condição da possibilidade da percepção, e não um objeto externo.

— Tempo

Toda ação depende do tempo. Ela sempre se constitui do uso de um meio no presente para se alcançar um fim no futuro.

O tempo em si não é escasso, mas a eficiência de um recurso escasso em um determinado período de tempo sempre é limitada.

Assim como o espaço, o tempo não pode ser percebido diretamente. A mente apenas percebe fenômenos sequencialmente, e os interpreta dentro da estrutura de tempo.

— Verdade

As crenças precisam ser verdadeiras para que a ação seja bem sucedida.

— Conhecimento

O indivíduo precisa justificar a verdade de suas crenças, caso contrário, não poderia prever os resultados da sua ação. Conhecimento é a justificação do valor-verdade de proposições.

– Epistemologia

Epistemologia é o estudo do conhecimento.

— O que é conhecimento?

Há uma diferença entre pensar em uma proposição, acreditar numa proposição (ter uma crença) e conhecer uma proposição.

O pensamento em uma proposição pode ser uma crença (quando afirma ou nega a proposição), mas também pode ser cético, quando se pensa que a proposição pode ser tanto verdadeira quanto falsa.

Um pensamento com valor-verdade (uma crença) implica em conhecimento quando é justificado. O conhecimento é a justificação do valor-verdade de uma proposição.

O conhecimento é a justificação do pensamento, ou seja, a mente é capaz de, através de um raciocínio, demonstrar que aquela proposição seja verdadeira.

A justificação deve ser capaz de apontar a verdade por um método objetivo que possa ser usado por qualquer indivíduo com capacidade de linguagem, ou seja, de fazer proposições.

Portanto, conhecer algo é o mesmo que justificar uma proposição.

Conhecimento é a justificação do valor-verdade de proposições.

Tipos diferentes de proposições precisam ser justificados por métodos diferentes.

— Demonstração do Conhecimento

Toda ação é um comportamento consciente pelo qual o indivíduo espera alcançar um resultado desejado. Para isso, o indivíduo deve ser capaz de prever o resultado de sua ação. Se o indivíduo não pudesse fazer isso, a ação seria inútil, e se o indivíduo acreditasse que é inútil agir, ele não agiria.

A ação é produzida por crenças, ao agir, o indivíduo espera ser capaz de assegurar a verdade dessas crenças. Se o indivíduo acreditasse que não pode se assegurar do valor-verdade de suas crenças, ele acreditaria que a ação é inútil e não agiria.

Assegurar-se do valor-verdade de crenças implica em justificar proposições.

Logo, a ação pressupõe a crença na possibilidade de justificar proposições (conhecimento).

Logo, é contraditório negar o conhecimento, já que a própria negação é uma ação, na qual está implícita a crença (afirmação) de que existe conhecimento.

—- Distinções Epistemológicas

* Demonstração das Distinções

Para que a mente aja, ela precisa distinguir entre diferentes tipos de conceitos e proposições.

Toda ação identifica a existência do seu meio, e identifica a condição da existência do seu fim. Logo, a distinção condicional-fatual está implícita em toda ação.

Toda ação tem condições, conhecidas independentemente da experiência (a priori), pressupostas pelo sujeito que, ao agir, lida com meios e fins pela experiência (a posteriori). Logo, a distinção a priori-a posteriori está implícita em toda ação.

Toda ação identifica a existência de fatos fora do sujeito que são identificados como meios e fins (externos), que só podem ser identificados pela experiência do sujeito (interna). Logo a distinção interno-externo está implícita em toda ação.

Logo, as distinções condicional-fatual, a priori-a posteriori e interno-externo não podem ser negadas, pois toda proposição, sendo uma ação, as pressupõe.

Logo, todo conhecimento se divide nessas distinções.

* Distinção Condicional-Fatual

Conhecimentos fatuais dizem que algo existe ou não existe (dizem a quantidade de algo no mundo), e conhecimentos condicionais dizem que há alguma condição da possibilidade da existência ou não-existência de algo.

*- Conhecimento Condicional

Conhecimentos condicionais dizem que uma certa coisa é condição da existência de outra.

Toda proposição condicional pode ser formulada como “para toda quantidade x de y no mundo, há a quantidade w de z”, onde x e w são números inteiros.

*- Conhecimento Fatual

Proposições fatuais são quantitativas, pois elas dizem a quantidade de algo no mundo.

Mundo é a corrente de coisas causalmente conectadas ao sujeito.

Existir no mundo é o mesmo que causar efeitos sobre coisas e ter efeitos causados sobre si, sendo que essa corrente de causas e efeitos está interligada ao sujeito.

Um sujeito não poderia justificar a proposição de que algo existe se esse algo não estivesse causalmente conectado, direta ou indiretamente, ao sujeito.

Tudo que pode ser justificado como existente por um sujeito, apenas o pode porque causa algum efeito interno no sujeito (sensações ou estados mentais).

Existência é quantificação, logo toda proposição fatual é uma quantificação, que pode ser formulada como “a quantidade de x no mundo é y”, onde y é um número inteiro.

*- Demonstração de que sentenças analíticas, modais, imperativas e normativas são redutíveis a proposições fatuais e condicionais (ou nonsense):

Sentenças consideradas analíticas, modais, imperativas ou normativas não são tipos fundamentais de proposições, mas sim construções linguísticas secundárias redutíveis a tipos fundamentais, são formas contingentes de se comunicar e não uma estrutura necessária de proposições.

Abaixo, a demonstração de como cada uma dessas formas pode ser reduzida a apenas proposições fatuais, condicionais ou nonsense:

Analíticas: Sentenças analíticas são tautologias, pois o predicado está dito no sujeito da sentença. Elas não afirmam ou negam nada, e portanto são nonsense.

Uma forma de expor isso é pelo fato de que, em uma tautologia, o predicado já está incluído, e não adiciona nada, ao sujeito. Logo, ao se remover o predicado da sentença, nada muda no seu significado. E uma sentença com apenas o sujeito é um nonsense, e logo tautologias também são nonsense.

Por exemplo: Em “todo solteiro é não-casado”, “não-casado” já está dito no próprio sujeito, e portanto o predicado não disse nada em adição ao sujeito, logo a sentença pode ser reduzida a apenas “todo solteiro”, o que claramente não é uma proposição, e portanto é nonsense.

Porém, proposições sobre significado de palavras podem ser interpretadas como proposições sobre o idioma, por exemplo: “Existe um idioma x, no qual se for dito y, isso terá o significado z”. Nesse caso a proposição não é nonsense, mas sim fatual a posteriori, sobre o idioma.

Imperativa: “Faça x” pode ser reduzido a “Eu quero que você faça x” (fatual), ou “Se você fizer x, isso terá uma certa consequência desejável” (condicional).

Normativa: “Deve-se fazer x” pode ser reduzido a “a ação x produz um resultado y desejável”, “a ação x produz o bem”, ou “a ação x tende a produzir o bem”.

O dever, portanto, só faz sentido dentro dos fatos e condições vinculados a uma ação. A ideia de dever desvinculado de qualquer condição lógica, indutiva ou fatual é nonsense.

Logo, a ideia de “dever absoluto”, “dever incondicional”, ou “imperativo categórico” não faz sentido.

Modal: “X é possível” pode ser reduzido a “as condições necessárias de x existem” (fatual).

* Distinção A Priori-A Posteriori

Conhecimentos a posteriori dependem da experiência, e a priori não dependem.

*- Conhecimento A Priori

Conhecimentos a priori são justificados pela razão pura.

Toda proposição a priori não depende de verdades contingentes (que podem ser verdadeiras em um momento e falsas em outro), pois apenas a experiência pode justificá-las. Logo, toda proposição a priori é necessária (cujo valor verdade é sempre o mesmo).

*- Conhecimento A Posteriori

Conhecimentos a posteriori são justificados pela experiência e indução. Todo conhecimento a posteriori é contingente.

Apenas proposições a priori podem provar algo com total certeza. Toda proposição a posteriori pode ser ilusória (a experiência pode não corresponder à realidade). Tudo que se pode fazer é induzir probabilidades maiores ou menores do valor-verdade das proposições a posteriori, mas essa probabilidade nunca pode ser 100% ou 0%.

A incerteza de proposições a posteriori é demonstrada pela distinção fenômeno-númeno.

Como proposições a posteriori são incertas, a sua justificação não garante que sejam verdadeiras, e por isso, conhecimento não pode ser definido como “crença verdadeira justificada”. Uma crença a posteriori pode ser corretamente justificada e mesmo assim ser falsa. Conhecimento é apenas a justificação do valor-verdade de proposições.

* Distinção Interno-Externo

Conhecimentos internos dizem algo em primeira pessoa (que existe no próprio sujeito), e conhecimentos externos dizem algo em terceira pessoa (que existe fora do sujeito).

Alguns conhecimentos dizem uma relação entre coisas internas e externas, essas proposições podem ser chamadas de internas-externas, por conterem ambos os tipos de conceito.

A distinção interno-externo, diferente das duas distinções anteriores, se aplica a conceitos que compõem proposições, por isso conceitos de ambos os tipos podem compor a mesma proposição, sendo um o sujeito e o outro o predicado da sentença.

*- Conhecimento Interno

Proposições internas se referem a algo que existe em primeira pessoa, como por exemplo, uma sensação, uma ideia, uma experiência.

Por exemplo, um sentimento, sensação ou desejo são internos para o sujeito que os sente em primeira pessoa.

*- Conhecimento Externo

Conhecimento externo diz algo que não está no próprio sujeito (que faz a proposição), como objetos físicos e outros sujeitos.

Proposições externas se referem a algo que existe em terceira pessoa, ou seja, um estado de coisas que possa ser verificado por várias pessoas diferentes.

*- Proposições Internas-Externas

Proposições internas-externas se referem a conceitos internos e externos simultaneamente.

— Exemplos

Combinando as 3 distinções, temos 12 tipos de conhecimento. A seguir exemplos de cada um:

Condicional a priori interno: “Toda experiência é uma interpretação de sensações”. “Toda proposição segue as leis da lógica”. “Uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo”.

Condicional a priori externo: “Toda substância é causal”. “Todo fato é causado por outro fato”.

Condicional a posteriori interno: “Se eu sentir fome, eu vou pensar em comida”. “Quando eu estou entediado, eu sinto sono”.

Condicional a posteriori externo: “Se gasolina entrar em contato com o fogo, ela entrará em combustão”. “Se você quiser passar na prova, deve estudar”.

Fatual a priori interno: “Eu existo”, “A verdade existe”. “Proposições existem”.

Fatual a priori externo: “A substância física existe”. “A causalidade existe”. “A mente interage com a física”.

Fatual a posteriori interno: “Eu estou sentindo dor”. “Eu estou vendo verde”.

Fatual a posteriori externo: “Este copo está em cima da mesa”. “Trump é o presidente dos estados unidos”. “Leões comem zebras”, “existem cavalos”. “Não existem unicórnios”.

Condicional a priori interno-externo: “Todo dado sensorial é causado pela substância física em contato com a mente”. “Toda ação altera a configuração de substância física”. “Todo indivíduo que age deseja fins que dependem de meios físicos”.

Fatual a priori interno-externo: “Eu causo efeitos físicos através da ação”. “Eu desejo alcançar certos estados de coisas físicos”.

Condicional a posteriori interno-externo: “Se eu martelar meu dedo, sentirei dor”. “Se eu comer, sentirei menos fome”. “Pessoas que sentem muita raiva tendem a se comportar de forma agressiva”

Fatual a posteriori interno-externo: “Estou preocupado com as oscilações do valor dos meus investimentos”. “Eu gosto de comer maçã”.

* Modos de objetividade e subjetividade

Subjetivo é aquilo que depende de um sujeito (ser consciente), objetivo é aquilo que não depende de sujeitos.

Existem dois modos em que algo pode ser objetivo ou subjetivo, o modo ontológico e o modo epistêmico. Ou seja, o modo de existência (ontológico) e o modo de justificação (epistêmico).

*- Ontológico Objetivo e Subjetivo

Algo é ontologicamente subjetivo quando sua existência depende do sujeito, e ontologicamente objetivo quando sua existência não depende do sujeito.

Por exemplo, “isto é uma nota de um dólar” é uma proposição ontologicamente subjetiva, pois dinheiro é uma atribuição que o sujeito faz a uma coisa física, e não uma propriedade física da coisa. Porém, dizer sobre a mesma nota de um dólar “isto é papel” é ontologicamente objetivo, no sentido de que a substância física que compõe o papel existe independentemente de sujeitos. Mas “isto é papel” também pode ser considerado ontologicamente subjetivo, no sentido de que é o sujeito que interpreta um determinado aglomerado de substância física como papel, e a ideia de papel se constitui de fenômenos (como aquilo aparenta ao sujeito), e não da substância física, a coisa-em-si.

Portanto, a definição das palavras deve ser totalmente esclarecida, separando-se fenômeno (experiência) de númeno (coisa em si não-observável pela experiência) para que a distinção fique clara.

*- Epistêmico Objetivo e Subjetivo

As proposições epistemicamente subjetivas se referem a especificidades subjetivas (estados de coisas em primeira pessoa) de pessoas específicas, por exemplo “sorvete de chocolate é gostoso”. O valor-verdade e justificação dessa proposição varia para cada pessoa. No entanto, essa proposição pode também ser considerada indefinida (e portanto, uma pseudo-proposição), pois um gosto só é gostoso ou ruim quando experimentado por um sujeito específico em um momento específico. Por exemplo: “Sorvete de chocolate é gostoso para o sujeito X no momento Y”. Nesse caso, a proposição é epistemicamente objetiva, pois sua verdade não depende do sujeito que está concebendo a proposição. Por isso, é questionável se proposições epistemicamente subjetivas realmente existem, pois pode-se considerá-las indefinidas, precisando de especificação de um sujeito em um momento que tenha o estado mental contingente.

Porém, proposições epistemicamente subjetivas, como “sorvete de chocolate é gostoso” podem ser ditas na forma “eu gosto de sorvete de chocolate”, e nesse caso, a proposição é definida, pois se refere ao eu que concebe a proposição, essa formulação pode justificar a existência de proposições epistemicamente subjetivas.

— Certeza e Incerteza

Alguns conhecimentos são certos, outros são incertos. Incertos são aqueles que se pode induzir pela experiência que sejam verdadeiros, mas que têm uma probabilidade de ser falsos. Certos são aqueles que com 100% de certeza ou probabilidade, podem ser justificados como verdadeiros ou falsos.

Todo conhecimento a priori é certo e todo conhecimento a posteriori é incerto, com exceção dos conhecimentos fatuais internos a posteriori sobre um fato no presente, que são certos. Por exemplo, eu posso saber se a proposição “eu estou vendo verde” é verdadeira ou falsa, pois o sujeito não pode estar enganado sobre fatos em primeira pessoa no presente. A experiência de ver verde não pode ser uma ilusão, porque em toda ilusão há a separação entre o fato real e a experiência ilusória, mas para fatos em primeira pessoa, não pode haver essa separação. A experiência de um fato em primeira pessoa corresponde diretamente ao fato, e não é uma interpretação, como no caso de fatos externos. Esse é o único tipo de conhecimento a posteriori que é certo.

Isso só se aplica a experiências internas no presente. Proposições sobre experiências internas no passado ou futuro são incertas, pois memórias podem ser falsas ou ilusórias, e não se pode ter certeza sobre o futuro, pois para isso seria necessário se conhecer todos os fatos presentes, e isso é impossível.

– Metodologia Epistemológica

Métodos epistemológicos são as formas pelas quais proposições podem ser justificadas.

— Demonstração dos Métodos Epistemológicos

Em toda ação, o indivíduo precisa justificar suas crenças sobre verdades contingentes, sobre como as coisas acontecem no contexto da ação, mas que possivelmente poderiam acontecer de uma forma diferente. A justificação de verdades contingentes, que são a posteriori, se chama experiência, ou indução.

Em toda ação estão implícitos conceitos a priori que não podem ser justificados pela experiência, mas que são condições de toda experiência, como espaço, tempo e causalidade. O sujeito não poderia ter experiências sem essa estrutura a priori dentro da qual as experiências são possíveis. Isso prova que o sujeito pode justificar certas proposições sem precisar de experiência, apenas por implicação necessária da ação. Essas proposições são a priori e necessárias. Logo, o método de justificação das proposições a priori é o de identificar a estrutura implícita na ação, identificando assim proposições necessariamente verdadeiras. Esse método pode ser chamado de razão pura, ou dedução.

Logo, os métodos epistemológicos, ou seja, métodos de se obter conhecimento, podem ser distintos entre a razão pura (para conhecimentos a priori) e experiência (para conhecimentos a posteriori).

— Razão Pura: Método A Priori (Dedução)

A razão pura consiste em identificar a estrutura a priori da realidade (verdades necessárias que são condição de toda experiência).

Esse método é chamado de razão pura porque envolve apenas a própria razão, sem a necessidade de sensações (dados).

Ao se tentar negar uma proposição a priori verdadeira, o próprio ato de negar implica na sua verdade, e portanto contradiz a negação.

Por exemplo, a proposição “eu ajo” é necessariamente verdadeira, pois ao fazer a proposição, o sujeito está agindo. E a proposição “eu não ajo” contém uma contradição prática, pois o ato de fazê-la contradiz o seu conteúdo.

Através desse método, o sujeito pode conhecer aquelas características estruturais da realidade que não são contingentes, mas são condição da possibilidade da concepção de estados de coisas contingentes.

— Experiência: Método A Posteriori (Indução)

É condição da possibilidade da ação que o indivíduo perceba os estados de coisas que influenciam e são influenciados pela sua ação, caso contrário, ele não poderia tomar decisões sobre os meios e fins da ação, e não poderia agir. Logo, a ação pressupõe a experiência de fatos como justificação de proposições a posteriori.

Para que a mente seja capaz de conhecer os estados de coisas existentes, esses estados de coisas necessariamente precisam causar estados mentais que permitam que a mente interprete como a existência de coisas fora dela. Esses estados mentais causados na mente pelos estados de coisas são chamados de dados (sensações).

A justificação da crença em estados de coisas contingentes pelo sujeito se chama experiência.

A experiência é a razão aplicada sobre dados.

Existem dois tipos de experiência: A interpretação de dados sensoriais (experiência externa) e a interpretação de dados subjetivos (experiência interna).

Dados sensoriais são dados dos sentidos, como visão, audição, olfato, tato e paladar. Uma cor no campo visual, um som ou um cheiro, são exemplos de dados sensoriais. Os dados sensoriais são provocados por coisas físicas externas ao sujeito, por isso eles são a base da experiência sobre fatos externos.

Dados subjetivos são estados mentais em primeira pessoa. Desejos, sensações e pensamentos são exemplos de dados subjetivos, que também podem ser chamados de dados internos, ou mentais.

O dado sensorial em si, por ser um estado mental, também é um dado mental.

Nesse sentido, o dado sensorial em si é interno, e seu conteúdo é externo. Dados sensoriais existem internamente, mas são causados no sujeito por causas externas. Por exemplo, se eu vejo no meu campo visual um objeto verde, isso é um estado mental, mas o fato de eu estar vendo esse objeto específico e não uma outra coisa é um dado externo.

Os dados sensoriais são a forma pela qual os estados de coisas (fatos) externos se tornam evidentes para o sujeito. Sem sentidos, o sujeito não poderia observar (identificar as evidências de) nenhum fato, e portanto, não poderia identificar meios e fins da ação, e não poderia agir.

Logo, a sensação (dado sensorial) é um estado mental causado por estados de coisas físicos (configuração de substância física).

Sensação é um dado bruto dos sentidos ou da mente, e experiência é a interpretação de sensações de forma inteligível.

Logo, estados de coisas são observados pela mente apenas como interpretação do observador sobre os dados sensoriais percebidos.

Os dados sensoriais, puros, não são suficientes para se conhecer fatos. A mente precisa interpretar os dados sensoriais dentro das categorias da percepção (espaço, tempo, causalidade, existência…), e só depois de encaixar os dados sensoriais nessas categorias, a mente entende aquilo na forma de objetos. Nenhum objeto é percebido diretamente, mas é uma interpretação, que é a organização dos dados sensoriais dentro das categorias intrínsecas à mente.

O dado sensorial em si não contém essas categorias a priori. A mente sintetiza os dados e a estrutura a priori do espaço, tempo, existência e causalidade em uma experiência unificada.

Todo objeto conhecido a posteriori é, portanto, uma interpretação da adequação dos dados sensoriais dentro das categorias da percepção (experiência externa).

A mente interpreta um conjunto de dados sensoriais combinados de uma determinada forma como um objeto, e ao induzir a existência desse objeto, a mente induz que certos dados sensoriais aparecerão de acordo com isso. É isso que significa afirmar que um objeto exista em uma localização espacial e temporal. Mas é impossível se ter total certeza de que os fenômenos se comportarão da forma esperada, pois toda interpretação de dados sensoriais, ou seja, toda experiência, pode ser uma ilusão provocada por objetos desconhecidos, ou incluir, em suas causas, variáveis desconhecidas cujo comportamento não aconteça da forma prevista pela indução.

A mente concebe um objeto pelo conjunto de causas atribuídas a ele. A mente não pode atribuir quaisquer características ao objeto em si além da sua causalidade. Todos os elementos sensoriais atribuídos ao objeto, como cor e forma, são efeitos causados pelo objeto, e não características intrínsecas dele.

É um erro acreditar que o espaço, ou a causalidade, sejam percebidos pelos sentidos. A percepção dos dados sensoriais não contém em si o espaço, ou a causalidade, e nem sequer formas. Essas categorias estruturais estão na mente, e a mente encaixa os dados sensoriais dentro delas, e somente ao fazer isso, a mente entende os dados sensoriais como sendo espaciais, temporais, causais, e entende um conjunto de dados sensoriais como representações de determinados objetos.

Se a mente visse objetos diretamente, não poderia haver ilusões sensoriais. Nunca poderíamos estar enganados sobre algum objeto que víssemos. Ilusões acontecem quando a interpretação dada aos dados sensoriais se mostra inconsistente com outras observações. Isso prova que objetos são interpretações da mente sobre os dados sensoriais, e não dados percebidos diretamente pelo observador.

— Distinção Fenômeno-Númeno

O sujeito pode conhecer estados de coisas contingentes (fatos) apenas pela experiência, que é uma interpretação de dados sensoriais. Dados sensoriais são causados por objetos externos, mas eles existem no sujeito, e não nos objetos externos. Logo, a aparência de um objeto, a forma como o sujeito percebe os objetos, não faz parte dos objetos em si, que existem fora do sujeito. A aparência de um objeto externo (fenômeno) é diferente do objeto externo independente do sujeito (númeno).

Fenômeno é a aparência de um fato para o sujeito, númeno é a coisa em si, que existe independente da experiência.

Todo conhecimento a posteriori externo é fenomênico, sobre como os fatos aparentam ser pela experiência, pois há uma experiência construída na estrutura da percepção que representa a coisa em si, ou seja, a experiência é a aparência que a coisa-em-si causa no sujeito.

Todo conhecimento a priori é numênico, sobre como as coisas são independentes da experiência, ou seja, como as coisas são por trás das aparências. Até mesmo os conhecimentos a priori sobre as próprias aparências em geral são numênicos, pois a aparência, ela própria, é uma coisa que existe por si mesma, e pode ser conhecida a priori, em como sua estrutura necessariamente é.

— Ilusão

Ilusão é uma interpretação falsa de que um fenômeno resulta de certos fatos.

(Por exemplo, é uma ilusão supor que um arco-íris resulta de algum material arranjado em forma de arco).

Em toda ilusão, há a distinção entre a interpretação da mente (experiência) e o estado de coisas real.

No entanto, para um estado mental em primeira pessoa, não pode haver essa distinção, pois a coisa real e a aparência são a mesma coisa.

Logo, um estado mental em primeira pessoa não pode ser uma ilusão.

Toda ilusão é tida por um observador.

Logo, o observador não pode ser uma ilusão.

Ilusão é um tipo de estado mental, e portanto a mente e os estados mentais, eles próprios, não podem ser ilusões.

Para prever o comportamento de fenômenos, o indivíduo precisa acumular informação sobre os resultados de ações passadas, esse acúmulo é a memória.

A indução sobre o comportamento de fenômenos é o método das ciências naturais.

Logo, as ciências naturais não podem dizer nada sobre as coisas-em-si, mas apenas sobre o comportamento de fenômenos.

— Ciências Naturais

Ciências naturais são o estudo do comportamento de fenômenos através da observação (interpretação de fenômenos) e formulação de teorias capazes de prever tendências (probabilidades) desses comportamentos.

Ciência é feita por observação (experiência externa).

Não existe observação sem o observador.

Logo, as ciências naturais pressupõem o conhecimento a priori sobre o observador e as categorias necessárias para a observação. Esses conhecimentos a priori não podem ser obtidos por observação, pois em toda observação, eles já estão pressupostos.

Logo, o empirismo é falso. (hipótese de que todo conhecimento é obtido por observação)

Logo, as ciências naturais não podem negar o observador, a ação, ou as categorias.

Logo, o método das ciências naturais não pode validar a si próprio, apenas o método a priori demonstra a validade do método a posteriori.

— Estudo da mente

A mente não é observável, pois ela é o observador.

Logo, a mente em si só pode ser conhecida pelo método filosófico (a priori), e não pelo método a posteriori.

O método a posteriori apenas pode observar tendências psicológicas e comportamentais de certos seres conscientes contingentes, e não a natureza intrínseca da mente em si.

— Memória

Nenhuma memória é certa, pois uma memória pode ser falsa ou distorcida. Memórias se baseiam em registros no cérebro (arranjo físico pelo qual a mente funciona).

Por exemplo, quando eu estou vendo a cor azul, eu posso ter certeza de que estou vendo azul no momento presente. A memória de ter visto azul no passado pode ser falsa. Mesmo assim, a memória de ter visto azul prova, pelo menos, que é possível ver a cor azul, já que eu posso saber como é a experiência de ver azul através da memória.

Logo, o sentimento, ou sensação, pode ser conhecido com certeza em primeira pessoa no presente, mesmo que a proposição seja a posteriori, ou seja, existem proposições a posteriori certas. Certas por serem garantidas pela experiência presente, mas em si, incertas, porque poderiam possivelmente ser falsas, como qualquer proposição a posteriori.

— Argumentos e Tautologias

Toda proposição segue a estrutura da lógica. Ou seja, o conteúdo da proposição não pode contradizer o significado das palavras, nem proposições verdadeiras podem se contradizer. Proposições que apenas afirmam o que já está implícito no significado das palavras são tautologias.

Ao se justificar o valor verdade de uma conclusão pelo próprio significado das palavras nas premissas (silogismo), o que a conclusão diz já havia sido dito pelas premissas. Fazer isso pode ser útil para esclarecer a linguagem e eliminar confusões e contradições do discurso, mas é diferente de deduzir uma conclusão nova a priori, que não havia sido dita pelas premissas.

Apenas argumentos sintéticos a priori são realmente argumentos a priori, que realmente derivam o valor verdade de uma conclusão que não havia sido dita pelas premissas, mas sim que é condição delas devido à estrutura da própria realidade.

Argumentos a priori não devem ser confundidos com tautologias. Conclusões de argumentos a priori genuínos são justificados por serem condição da existência da própria ação, portanto estão implícitas no ato de fazer a proposição, o que é diferente de estarem implícitas no significado das palavras.

Argumentos (justificações) a priori, portanto, derivam uma conclusão que não estava dita pelas premissas, e não são tautológicos.

— Crença Verdadeira Justificada

Alguns pensadores definem conhecimento como “crença verdadeira justificada”. Neste texto, conhecimento é definido apenas como “justificação de proposições”, pois nem todo conhecimento contém em si certezas e verdades. Conhecimentos a posteriori apontam tendências de certas proposições serem verdadeiras, mas não contém certeza.

– Fatos a Priori

Apenas os conhecimentos a priori podem ser conhecidos com certeza. Eles são sempre verdadeiros, pois sua verdade está implícita como condição do próprio ato de afirmá-las ou negá-las.

Só há duas formas de se conhecer a existência de uma coisa, uma é a experiência, pela qual se conhece a posteriori a existência de coisas. A outra é o conhecimento a priori de que algo existe, que só acontece quando esse fato é condição da existência da própria proposição que o afirma.

O primeiro fato a priori que se pode conhecer, portanto, é a própria existência da proposição.

“Proposições existem” é a primeira proposição fatual a priori que se pode conhecer. Essa proposição prova a si mesma diretamente, pois ela precisa existir para ter um valor-verdade, sendo portanto, sempre verdadeira. Ela nunca pode ser falsa, pois a proposição precisaria existir para que fosse falsa.

Algumas pessoas se opuseram a esse raciocínio afirmando que “algo existe” é uma proposição epistemicamente anterior a “proposições existem”.

Não se pode saber que algo existe, em geral, sem que se saiba que algum tipo de coisa específico existe. Apenas se pode provar que “alguma coisa existe”, antes se provando a existência de algo específico.

O sentido de se afirmar a existência de algo é afirmar algo sobre a realidade. A proposição “algo existe” não afirma nada sobre a realidade, pois a palavra “algo” se aplica a qualquer coisa que possa existir e não diz nada sobre o que existe.

Também não se pode ter certeza de que algo existe pela experiência, pois todo conhecimento baseado na experiência (a posteriori) é incerto.

Apenas quando se tem certeza de que proposições existem, se tem certeza, por consequência disso, que “algo existe”, e não o contrário.

E sobre a objeção de que a primeira proposição que se pode conhecer com certeza é “eu existo”? Isso também não é verdade, pois essa proposição precisa ser justificada argumentativamente. Apenas a experiência subjetiva interna, a experiência de um estado mental, não a pode justificar. A experiência é uma justificação a posteriori, e não a priori. Animais, por exemplo, também podem ser conscientes, mas eles não sabem que existem. Isso só pode ser demonstrado pela linguagem.

Justificar que “eu existo” porque “estados mentais existem” exigiria uma justificação da existência de estados mentais, o que teria que ser justificado por “eu estou tendo a experiência de um estado mental”, mas esta proposição já afirma que existe um eu que tem o estado mental. Portanto, a justificação é circular, pois se justifica o estado mental pelo eu, e o eu pelo estado mental.

Da mesma forma, as proposições “eu duvido”, “eu penso”, ou “eu tenho estados mentais”, já afirmam implicitamente que existe um eu que tem esses estados mentais, e portanto “penso, logo existo” é um argumento circular, onde a conclusão já está dita implicitamente na premissa.

A proposição “eu penso” diz, implicitamente, “existe um eu, tal que esse eu pensa”.

Portanto, nem o “eu”, nem os estados mentais em geral servem como ponto de partida para justificar algum fato a priori, ou seja, para se afirmar com certeza que algo exista. O ponto de partida, portanto, só pode estar na própria afirmação, a proposição. Pode-se afirmar que “proposições existem”, pois a própria afirmação é uma proposição, e portanto prova a si mesma. Essa é a única proposição fatual que prova a si mesma diretamente.

Logo, “proposições existem” é a primeira proposição fatual que pode ser afirmada a priori.

E se toda linguagem for uma ilusão, como supõem alguns filósofos da mente? Nesse caso, também não se pode negar que proposições existam, pois a negação seria uma ilusão e não existiria. Afirmar ou negar qualquer coisa implica que a linguagem existe e não é uma ilusão.

A proposição “proposições existem” pode ser dita de outras formas também, como “semântica existe”, “significado existe”. Toda semântica (significado) se constitui de conteúdos proposicionais. Todo conteúdo proposicional é um conteúdo semântico.

A consciência não prova a si mesma, no sentido de que o mero fato de eu estar consciente não constitui uma prova a priori de que eu sou um ser consciente. A consciência, a princípio, poderia ser uma ilusão, ou ser redutível a outra coisa não-consciente.

Um animal, por exemplo, é um ser consciente, mas não sabe disso, por não possuir linguagem, com a qual possa conceber e justificar o conteúdo semântico, proposicional e linguístico de que ele próprio é um ser consciente. Assim como uma pessoa precisa de um espelho para se enxergar, a mente precisa do espelho da linguagem para conceber a si mesma.

A demonstração, e portanto justificação, e portanto conhecimento, de que a consciência existe, pode ser demonstrada pelo fato de que a proposição é um conteúdo semântico, e conteúdos semânticos são conscientes.

Todo estado de consciência existe apenas em relação a um observador (o ser consciente). Logo, se estados de consciência existem, o observador existe.

Se uma proposição é feita conscientemente, então a proposição demonstra que a mente pode causar efeitos conscientemente, demonstrando a proposição “Eu ajo”, que é um fato a priori.

A proposição é formulada como “eu ajo” porque toda ação (causa consciente) acontece em primeira pessoa, e não em terceira.

A existência da ação não pode ser negada, pois ao negá-la, o indivíduo estaria agindo, provando, através da negação, a verdade daquilo que está sendo negado, caindo em contradição prática.

Portanto, provaram-se quatro proposições fatuais a priori básicas: “proposições existem”, “consciência existe”, “eu existo”, “eu ajo”.

Essas demonstrações são fatuais a priori, e não são tautologias.

Não está contido no significado das palavras que proposições e o eu consciente existam, mas sim como condição da possibilidade de qualquer proposição ser feita, inclusive a negação dessas proposições.

Elas não podem ser negadas pois o processo de se negá-las, que é o ato de fazer uma proposição, prova que são verdadeiras.

– Metafísica

Metafísica é o estudo daquilo que existe e suas propriedades. Ao contrário das ciências naturais, a metafísica não se constitui da observação de comportamentos de fenômenos, mas sim do processo de se conhecer a base da realidade, aquilo que existe por si mesmo, que não pode ser reduzido a outra coisa, e que compõe as outras coisas que existem.

Esse constituinte básico da realidade pode ser chamado de substância.

A substância, por ser numênica, não pode ser entendida dentro da estrutura fenomênica, ou seja, a substância nunca pode ser entendida como um objeto espaço-temporal, apesar de ela ser o componente fundamental de todos os objetos.

Na metafísica, se usa o método a priori (método usado em todas as áreas da filosofia), para descobrir quais constituintes básicos precisam necessariamente compor a realidade.

De fato, qualquer observador em qualquer possível mundo que tentasse descobrir de que se compõe a realidade chegaria nas mesmas conclusões pelo método a priori, pois elas dependem apenas das condições necessárias do ato de se fazer uma proposição, que é uma ação.

— Substância

Substância é algo que existe e não pode ser decomposto ou reduzido a outra coisa.

Logo, tudo que existe é composto de substância.

O fato da ação demonstra que existem coisas conscientes (o sujeito que age), e coisas inconscientes (os meios e fins da ação), que intrinsecamente se comportam de acordo com dois tipos de causalidade, e por isso não podem ser reduzidos a uma única coisa.

Logo, existe substância consciente (mental) e substância inconsciente (física).

Em outras palavras, há a distinção entre ontológico subjetivo e ontológico objetivo, dois modos de existência.

Aquilo que existe baseado no sujeito é ontologicamente subjetivo (mental) e aquilo que existe baseado em substância física é ontologicamente objetivo (físico).

Todo arranjo é um arranjo de algo. Por exemplo, uma figura geométrica é um arranjo de ideias espaciais. Uma proposição é um arranjo de conceitos.

Ideias não podem existir desvinculadas de uma mente. Ou seja, ideias existem baseadas no observador. Ou seja, ideias são ontologicamente subjetivas.

Porém, ideias são epistemicamente objetivas, pois sua existência no observador é intrínseca, e não uma interpretação de um observador separado delas.

Forma é um arranjo de substância (todas as coisas existem baseadas em substância), logo não podem existir formas desvinculadas da substância.

Arranjos são composições de partículas.

Partícula é uma unidade indivisível de substância.

Logo, formas não podem ser a explicação, ou causa, da substância. Isso refuta a hipótese de um mundo de formas (mundo das ideias) como causa dos objetos físicos.

Formas também não podem ser a causa dos arranjos específicos de substância, pois para isso elas precisariam existir desvinculadas da substância, para que pudessem causar arranjos de substância.

Logo, a substância intrinsecamente se compõe em formas (arranjos).

— Causalidade

Causalidade é a propriedade de uma coisa causar efeitos sobre outras e ter efeitos causados sobre si.

Se uma substância não tivesse causalidade intrínseca, ela não poderia interagir com o mundo, e logo, não poderia fazer parte dele.

Não faria sentido afirmar que uma substância não seja causal, pois nesse caso, não seria possível identificar nenhuma propriedade nela, e portanto, seria impossível identificar a sua existência.

Logo, toda substância é intrinsecamente causal.

Toda causa é baseada na substância, pois tudo que existe se compõe de substância. Logo, toda relação causal entre estados de coisas se constitui de relações causais entre as substâncias que os compõem.

A ação depende da causalidade do sujeito, pois é produzida por crenças (desejo e indução), que existem no sujeito. Crenças são estados subjetivos (mentais), portanto o axioma da ação prova a existência do sujeito (mente).

A ação depende da causalidade de objetos (meios), pois se a mente fosse a única causa de ações, ela seria onipotente, alcançaria todos os seus fins instantaneamente, e não haveria ação.

Logo, em toda ação, há obstáculos à vontade do indivíduo.

Logo, não pode haver um ser onipotente.

Logo, a mente não pode funcionar desvinculada da física.

Logo, toda ação é falível.

Se objetos não se comportassem de forma regular (causal), o efeito de ações seria imprevisível e não haveria ação. A ação prova que objetos seguem regras regulares, podemos chamar isso de leis da física.

O conceito de causalidade, portanto, está implícito no entendimento do que é agir. Sem causalidade, tanto física quanto mental, não haveria ação.

Toda propriedade da substância e de objetos pode ser reduzida à sua causalidade. A existência de qualquer coisa só pode ser conhecida devido a essa coisa causar efeitos em outras, e ter efeitos causados em si por outras.

Logo, o axioma da ação prova as causalidades física e mental.

— Determinismo vs. Livre Arbítrio

Livre-Arbítrio é a hipótese de que uma mente poderia fazer múlltiplas escolhas diferentes e excludentes a partir das mesmas causas. Isso implica que o fato de A ser escolhido no lugar da alternativa B não tem uma causa, já que com exatamente as mesmas causas, B poderia ter sido escolhido. Se a escolha não tem causa, então a mente não pode ser a causa dela, e portanto a mente não poderia fazer a escolha, ela seria, na verdade, aleatória. Logo, é um erro de linguagem dizer que escolhas são feitas livremente.

Escolhas também não podem ser determinadas apenas por causas físicas, pois nesse caso, a mente não poderia escolher, os estados mentais seriam causados pela física.

Logo, escolhas são causadas por estados mentais (crenças).

Logo, a ideia de livre-arbítrio é falsa.

Logo, o determinismo físicalista (que diz que toda causa é física) também é falso.

Logo, o determinismo dualista é verdadeiro (todo efeito é determinado por causas físicas e/ou mentais).

Todo estado mental é causado e toda causa é determinada. Para a mesma causa, o efeito sempre é o mesmo. Mas os estados mentais também são causais, logo o indivíduo que tem os estados mentais causa efeitos, baseados em suas crenças. Logo, a mente, apesar de determinada, causa efeitos em si mesma e na física.

Pode ser levantada uma objeção, de que se as crenças são determinadas, então elas não podem ser justificadas, pois o indivíduo simplesmente é determinado a acreditar nelas, e não pode livremente questioná-las e justificá-las pela sua própria vontade.

Essa objeção erra porque mistura os conceitos de liberdade e de vontade. A mente exerce sua vontade, inclusive sobre si mesma. Mas a vontade da mente é causada, tanto por estados mentais quanto pela influência da física (e.g. do cérebro). Apesar de a vontade ser causada, ela é fundamentada na estrutura da mente, que inclui a justificação de proposições, a mente pode questionar suas próprias crenças e justificá-las por argumentos, pois ela pode causar efeitos em si mesma.

Para que a mente possa raciocinar, ela precisa, sim, não ser totalmente dependente da causalidade física. Caso contrário, suas crenças, tanto verdadeiras ou falsas, seriam todas causadas pela física, e nunca por justificativas racionais, que são mentais. Logo, seria impossível saber de quaisquer proposições devido à impossibilidade de justifica-las, resultando no ceticismo global (hipótese de que é impossível justificar qualquer proposição, e portanto ter qualquer conhecimento).

O ceticismo global, no entanto, pode ser refutado (demonstrado falso), pois se eu soubesse que o ceticismo global é verdadeiro, isso seria contraditório, pois pelo menos um conhecimento existiria, e se eu não pudesse saber que o ceticismo global é verdadeiro, não haveria nenhum motivo para acreditar nele. Logo, é impossível negar que conhecimentos existem pois isso cai em contradição prática. Além disso, conhecimento é condição da possibilidade da ação.

A causalidade mental, independentemente de ser determinada ou livre, inclui coisas como questionamentos, proposições justificadas, crenças baseadas em justificação. Não é necessário postular algo adicional que viole a lei da causalidade para explicar o pensamento racional.

Liberdade é definida aqui como não-determinação de efeitos baseados em suas causas em alguns estados mentais. Ou seja, alguns estados mentais não seriam causados, pois eles poderiam acontecer de duas ou mais formas diferentes baseados em exatamente as mesmas causas, e supostamente aconteceram de uma forma específica devido a essa escolha não-causada do indivíduo livre.

Um problema com isso é que não faz sentido dizer que uma coisa aconteça sem causa. E o livre-arbítrio contradiz a causalidade, pois afirma que tanto A quanto B podem ser escolhidos, não havendo uma explicação para A ter sido escolhido no lugar de B, já que com exatamente as mesmas causas, B poderia ter sido escolhido. Não há diferença entre essa ideia e a ideia de aleatoriedade. Porém, ao se afirmar que algo acontece sem causa, se quebra uma condição da possibilidade do entendimento dos fatos do mundo. Se coisas podem acontecer sem causa, por que algumas coisas, como escolhas, costumam acontecer sem causa e outras não? Isso precisaria de uma causa também, ou qualquer coisa poderia acontecer sem causa. Mas ao perguntar como uma coisa acontece sem causa e outra não, se questiona exatamente a causa daquilo acontecer, resultando em uma contradição.

A mente (o eu) faz escolhas, e causa efeitos conscientemente, mas isso não significa que ela seja “livre”, no sentido de suas escolhas não serem causadas. Pelo contrário, um efeito não-causado não poderia ser uma escolha, mas sim uma aleatoriedade, a ideia de escolha significa que a mente causa algo conscientemente, ou seja, a escolha é causada (por crenças). E isso significa que as escolhas são determinadas, mesmo que por estados mentais.

A mente, portanto, é capaz de escolher e causar efeitos na física (arbítrio), mas nem sequer faz sentido dizer que ela seja livre. Liberdade, como explicação não-causal de escolhas, é portanto um erro.

Outra objeção seria a seguinte: Se o determinismo fosse verdadeiro, e uma pessoa tivesse toda a informação sobre as posições das partículas em um determinado momento, essa pessoa poderia, a partir disso, prever todos os movimentos delas, inclusive todo o meu comportamento, incluindo a minha reação ao ver o experimento, etc. Porém, seria tolo supor que eu não pudesse, pela minha escolha, fazer algo diferente do que estivesse ali previsto, ao ler a previsão, logo o indivíduo não seria causalmente determinado nas suas decisões.

O problema com esse argumento é que não necessariamente pode haver alguma previsão que, mesmo ao ser lida por um determinado indivíduo, seja seguida, pois é possível que um indivíduo deseje se comportar diferente da previsão e faça diferente de propósito, tornando impossível a tarefa de prever o seu comportamento após ele ler a previsão. Isso poderia ser feito até mesmo por uma inteligência artificial inconsciente, que poderia ser programada para se comportar diferente da previsão lida por ela. E inteligências artificiais inconscientes não poderiam ser livres nem na hipótese do livre-arbítrio, isso nem sequer é inteligível pois não há ponto de vista em primeira pessoa que pudesse ser livre em primeiro lugar. Portanto o argumento não serve como prova da liberdade.

Outro argumento a favor do livre-arbítrio é o de que temos a experiência em primeira pessoa de fazer escolhas. Mais uma vez, escolha, longe de ser uma prova do livre-arbítrio, é uma prova do determinismo. Pois uma escolha só é inteligível como uma causa mental de um efeito, e essa causa explica por que uma alternativa foi escolhida ao invés de outra. Sem essa explicação, não há causa da escolha, e portanto ela não poderia ser causada pela mente, e portanto seria falso que a mente faz escolhas, elas seriam apenas uma aleatoriedade.

— Por que Metafísica é Importante?

A metafísica, sendo o conhecimento das propriedades dos componentes básicos da realidade, permite o entendimento do que constitui todas as outras coisas, acabando assim com dúvidas, tendências ao relativismo ou ceticismo global.

Esse conhecimento é útil pois ao eliminar teorias inconsistentes com ele, estudos ou pesquisas inúteis também são evitados.

– A visão de mundo cientificista

A visão de mundo cientificista diz que a ciência pode explicar o mundo. Ela pode observar fenômenos microscópicos e formar a teoria de que a realidade se constitui desses fenômenos, e eles constituem os fenômenos macroscópicos.

Um problema com isso é que, ao se deparar com um fenômeno, ou interpretação de fenômenos, sempre se pode perguntar se aquela coisa pode ser decomposta em outras ainda menores, ou se é um epifenômeno ou ilusão provocada por outras coisas maiores ou menores.

A ideia de que fenômenos (aparências) em si podem constituir a realidade é fundamentalmente errada.

Nem sequer é possível, cientificamente, afirmar que os fenômenos microscópicos constituem os macroscópicos. Fenômenos microscópicos podem ser até mesmo ilusões provocadas pela interação entre outras coisas.

— Refutação do Idealismo:

Se o conhecimento é derivado do axioma da ação, e a ação segue a estrutura da mente, por que isso serviria como base para conhecer um mundo físico, que exista fora da mente? Por que não concluir o idealismo, que afirma que tudo que existe é mental? A resposta é de que a ação pressupõe uma interação entre as realidades subjetiva (mental) e objetiva (física). Para que essa interação ocorra, a estrutura da ação precisa obedecer o funcionamento de ambas. Logo, se pode conhecer certas verdades sobre a natureza física através do axioma da ação, que são verdades necessárias a priori.

— Interação Psico-Física

Alguns pensadores defendem o fisicalismo ou o reducionismo materialista ou fisicalista, ou seja, a hipótese de que a mente não existe, ou é uma ilusão, ou um epifenômeno, sem causalidade própria, pelo argumento de que não poderia haver interação entre a mente e a física se fossem duas coisas de natureza diferente.

Eles exigem, portanto, uma explicação de como essa interação acontece. Porém, a pergunta “como acontece a interação entre a mente e a física?” é sem sentido. É simplesmente um fato necessário a priori que essa interação exista como propriedade fundamental da realidade. Como a interação causal acontece entre substâncias (númeno), é nonsense exigir uma explicação fenomênica de uma interação numênica.

A posição de que a interação entre a mente e a física é numênica, e portanto não pode ser explicada de forma fenomênica, pode ser chamada de numenalismo psico-físico.

Da mesma forma, a disputa entre monismo e dualismo não faz sentido, pois aplica inadequadamente a categoria de quantidade ao númeno.

A categoria de quantidade só se aplica a fenômenos. O mundo não é dividido em limites em si mesmo, é a mente que aplica limites no seu entendimento do mundo.

A ideia de que uma das duas posições, dualismo ou monismo, é verdadeira, pode ser chamada de dualismo conceitual.

O numenalismo psicofísico, portanto, se opõe ao dualismo conceitual.

Considerar a mente como propriedade emergente de estados físicos numênicos, ou como substância que conceitua o universo espaço-temporal fenomênico, são apenas formas diferentes de descrever a mesma realidade.

– Economia

A economia é o estudo da valorização de meios da ação pelo indivíduo.

Todo meio da ação é um recurso escasso.

Todos os processos econômicos, como produção, trocas, etc. se constituem de ações. Toda ação é feita por indivíduos, logo toda economia é constituída por indivíduos agindo.

– Valor Econômico

Valor econômico de recursos escassos se constitui da preferência que indivíduos dão a determinados recursos sobre outros.

Logo, todo valor econômico é relativo ao observador (indivíduo), ou seja, ontologicamente subjetivo.

Logo, nenhum recurso possui valor econômico intrínseco.

Se um recurso não for desejado por ninguém como meio, ele não tem valor econômico.

O valor econômico não é quantificável, ele é ordinal, e não cardinal. O indivíduo sabe, entre dois recursos, qual deles ele valoriza mais, mas não pode quantificar essa preferência.

A valorização de recursos escassos é marginal, ou seja, o indivíduo valoriza unidades de um recurso escasso separadamente, e não o tipo de recurso escasso como um todo.

O valor que um indivíduo dá a cada recurso, portanto, muda com o tempo, conforme mudam seus pensamentos sobre que meios e fins resultarão em maior satisfação.

— Poupança

O indivíduo poupa quando acumula recursos no presente para que possa usar no futuro.

— Investimento

Investimento é o uso de recursos acumulados, com o fim de produzir recursos ainda mais valiosos.

—- Custo de Oportunidade

Toda ação (incluindo investimento e produção) inclui em seu custo os fins que foram renunciados (que poderiam ter sido alcançados caso outra ação fosse escolhida). Esse é o custo de oportunidade.

—- Produção

Produção é uma alteração na configuração (arranjo) de recursos escassos com o fim de obter novos recursos. Todo recurso (meio da ação) se compõe de substância. Substância não pode ser criada nem destruída, apenas rearranjada.

Toda produção exige múltiplos recursos em uma certa combinação para resultar no recurso produzido (produto).

Toda produção tem como objetivo o consumo.

—– Consumo

Consumo é o uso de um meio para alcançar satisfação imediata.

Todo consumo envolve o gasto dos meios, que precisam continuar a ser produzidos para que possa haver mais consumo.

—– Custo

Os meios usados na produção constituem o seu custo.

—— Eficiência

Quanto mais baixo o custo incorrido na produção de um certo recurso, mais eficiente é essa produção.

O indivíduo pode investir para tornar os meios de produção mais eficientes.

——– Tecnologia

A economia é indissociável da tecnologia. Todo avanço econômico depende do aumento na eficiência dos meios de produção, que são ferramentas cujo objetivo é produzir mais usando menos recursos. A tecnologia é o acúmulo de conhecimento sobre a produção de ferramentas.

— Trocas

Toda ação é uma troca, o indivíduo troca um estado de coisas, o meio, por outro, que ele deseja.

— Troca interpessoal

Em uma troca interpessoal, em que dois indivíduos trocam os respectivos recursos de que dispõem pelos do outro, cada indivíduo sempre valoriza mais os bens que recebe aos que renuncia. Ou seja, acredita que o estado de coisas resultante da troca é mais satisfatório que o estado de coisas que aconteceria na ausência dela.

Ou seja, a ordem de preferência dos dois indivíduos pelos bens trocados é inversa.

—- Mercado

O mercado se constitui de todos os indivíduos que possam fazer trocas entre si.

—– Divisão do Trabalho

Indivíduos diferentes podem ter graus de eficiência diferentes na produção de certo recurso, devido às habilidades e meios disponíveis de cada um serem diferentes.

Nesse caso, mais lucro é alcançado quando cada indivíduo trabalha na tarefa que é capaz de fazer com maior eficiência em comparação ao outro.

— Leis econômicas

As leis econômicas são demonstradas ou deduzidas a priori a partir da estrutura da ação.

— Lei da Utilidade Marginal Decrescente

Quando um indivíduo dispõe de uma unidade de um recurso escasso, ele usará aquela unidade para o fim mais valorizado que ele acredita poder alcançar através dela.

Quando um indivíduo adquire uma unidade adicional de um estoque homogêneo, ele usará aquela unidade para o próximo fim mais valorizado, depois do fim satisfeito pela unidade anterior.

Logo, cada unidade adicional de um estoque homogêneo é usada para um fim menos valorizado que a unidade anterior.

O fim menos valorizado satisfeito por uma unidade de um estoque constitui a utilidade marginal ou valor marginal daquele recurso para o indivíduo que dispõe do estoque.

Quando um indivíduo troca um recurso por outro (se desfaz de um para adquirir outro), ele faz isso porque considera que o valor marginal do bem renunciado é menor que o valor marginal do bem adquirido.

— Lei de Oferta e Demanda

Quanto mais quantidade de um recurso está disponível (oferta), menor é o valor médio de cada unidade, devido à utilidade marginal decrescente.

Quanto maior é o desejo de indivíduos pelo uso de unidades de um recurso (demanda), mais valioso ele é no mercado.

— Lei de Retornos

Toda produção envolve o uso de múltiplos recursos.

Em relação a dois tipos de recursos usados em uma produção, existe uma proporção ótima entre os dois, ou seja, uma proporção na qual a produção será maior em relação ao custo.

Qualquer desvio dessa proporção ótima aumenta o custo de produção.

— Lei da Associação

Se entre dois indivíduos, um deles for mais eficiente (capaz de produzir mais lucro) que o outro em duas tarefas, e se um deles tem uma diferença maior na eficiência de uma tarefa para outra, se este se especializar na sua tarefa mais eficiente, e o outro se especializar na outra, isso será mais lucrativo do que se ambos dividirem sua produção entre as duas tarefas.

Mesmo que dois indivíduos não apresentem diferença que justifique a divisão de trabalho inicialmente, a especialização ainda seria eficiente pois cada um poderia investir em melhorar suas capacidades em tarefas diferentes.

Logo, a divisão de diferentes trabalhos entre diferentes indivíduos sempre aumenta a eficiência da produção em comparação a cada indivíduo fazer todos os trabalhos.

– Teoria Monetária

Teoria Monetária é o estudo do dinheiro.

— Dinheiro

Trocas interpessoais encontram diversos obstáculos, de acordo com as características dos recursos trocados. Esses obstáculos resultam em custos e prejuízos.

Dinheiro é um recurso utilizado para trocar outros recursos entre si indiretamente.

O dinheiro pode ser útil para fazer trocas, acumular valor, transportar valor.

A utilidade do dinheiro vem das suas características, que podem ser chamadas de características monetárias, e também da sua aceitação no mercado. As características do dinheiro permitem que trocas interpessoais sejam feitas incorrendo em menor custo.

— Moeda

Moeda é um certo tipo de recurso usado como dinheiro.

—- Moeda forte

Quanto mais útil é uma moeda, mais forte ela é.

—– Características Monetárias

As características monetárias se baseiam na composição física da moeda, ou seja, os arranjos de substância física que permitem a identificação de instâncias de uma moeda.

O fato de um recurso ser dinheiro é ontologicamente subjetivo (relativo ao observador), mas as características monetárias são ontologicamente objetivas (físicas) em um recurso.

Moeda digital, baseada em programas de computador, também é considerada física nesse sentido, pois se baseia na física dos computadores.

—— Portabilidade

Toda troca interpessoal exige alocação de recursos. Toda alocação de recursos exige um custo, ou seja o uso de meios para realizar a alocação.

O dinheiro é mais eficiente em alocar recursos de forma satisfatória na medida em que a alocação (transporte) dele tiver baixo custo, ou seja, ele possuir uma portabilidade maior que outros tipos de recurso.

Logo, quanto mais portável é uma moeda, mais forte ela é.

—— Divisibilidade

Um meio da ação (recurso) se constitui de arranjos de substância. Logo, não é possível dividi-lo em partes indefinidamente mantendo sua utilidade.

Quanto mais uma moeda puder ser dividida mantendo sua utilidade como meio de troca, mais ela pode ser considerada divisível.

A divisibilidade da moeda permite maior capacidade de fazer trocas de quantidades e valores específicos.

Alguns recursos permitem maior divisibilidade que outros.

—— Escassez

A produção de mais quantidade de moeda resulta em inflação (perda do valor e utilidade do dinheiro).

A escassez de uma moeda é o fato de ser difícil, ou impossível, se produzir mais unidades dela. Quanto mais difícil, maior a sua escassez.

Quanto mais escassa uma moeda, mais valiosa ela é como meio de troca e reserva de valor.

—— Fungibilidade

Uma moeda é fungível quando cada unidade dela possui as mesmas propriedades.

Uma moeda precisa ser fungível para que suas unidades possam ser valorizadas de forma homogênea, sendo mais eficiente na sua função como moeda.

—— Durabilidade

Quanto mais durável é uma moeda, podendo ser usada sem que isso desfaça sua constituição física, mais forte ela é.

—— Ocultabilidade

Ocultabilidade é a característica de unidades de uma moeda não serem detectáveis ou rastreáveis, exceto pelo seu usuário. Isso permite ao usuário decidir ocultá-las ou revelá-las de acordo com sua vontade.

— Valor Monetário

O valor do dinheiro se constitui da sua aceitação pelos indivíduos como meio de troca de recursos escassos.

— Dominância Monetária

Quanto mais uma moeda é valorizada pelos indivíduos, mais dominante ela é na sociedade.

Quanto mais forte uma moeda, maior a tendência de ser aceita no mercado (trocas interpessoais), por ser mais útil.

Se uma moeda for superior às outras em todas as características, isso torna mais provável que ela alcance dominância total (seja a única moeda utilizada pela sociedade).

— Deflação e Inflação

Inflação é o aumento da oferta de dinheiro.

A soma de todo dinheiro em circulação é usada para trocar a soma de todos os produtos em circulação.

Logo, se a quantidade de dinheiro em circulação aumentar (inflação), cada unidade de dinheiro poderá comprar menos produtos. Se a quantidade de dinheiro diminuir (deflação), cada unidade poderá comprar mais produtos.

Se a quantidade de produtos em circulação aumentar, cada unidade de dinheiro poderá comprar mais produtos, e se diminuir, cada unidade poderá comprar menos produtos.

— Dinheiro como investimento

Para investir em meios de produção, é preciso acumular recursos. Como o dinheiro é um recurso portável e durável, seu armazenamento e transporte têm baixo custo.

Manter dinheiro fora de circulação resulta em deflação.

Deflação estimula a poupança.

Poupança facilita o investimento.

Investimento resulta em aumento da produção.

O aumento da produção resulta em valorização do dinheiro, pois a mesma quantidade de dinheiro pode ser trocada por mais produtos.

– Lucro e Prejuízo

Lucro é um aumento na satisfação do indivíduo.

O indivíduo considera que lucrou quando valoriza mais os meios disponíveis no presente aos disponíveis anteriormente.

Toda troca interpessoal é feita visando o lucro.

— Cálculo Econômico

Lucro pode ser obtido através de produção e trocas que resultem em recursos com maior valor no mercado que aqueles usados na sua produção.

O cálculo do valor econômico de bens no mercado só é possível através de um sistema de preços.

— Sistema de preços

O sistema de preços é formado pela oferta e demanda de recursos no mercado.

O mercado (trocas interpessoais de recursos) apenas pode acontecer quando cada indivíduo possa dispor de recursos, podendo decidir sobre seu uso exclusivamente.

Essa exclusividade individual de decisão sobre o uso de recursos pode ser chamada de propriedade privada.

—- Sociedade de Propriedade Privada

Em um sistema de propriedade privada, apenas se pode conseguir recursos produzidos e poupados por outros se eles forem transferidos voluntariamente. E recursos são transferidos voluntariamente apenas se aqueles em ambos os lados da troca preferirem os recursos recebidos aos renunciados.

Logo, dentro da lei de propriedade privada, o indivíduo apenas pode obter lucro da sociedade através de produzir lucro a outros.

—– Sociedade Anti-Ética

Numa sociedade em que se viola a lei de propriedade privada, é possível obter lucro através do prejuízo de outros, ao se violar suas propriedades.

—– Coerção

Coerção é o uso de força física ou ameaça do uso de força física com o objetivo de persuadir outras pessoas a fazer certas ações.

—– Livre Mercado

Livre Mercado (livre concorrência) acontece quando o mercado funciona dentro da regra de propriedade privada.

Dentro da regra de propriedade, cada indivíduo pode produzir e vender qualquer recurso no mercado. Isso permite que o consumidor selecione os melhores produtos e serviços, disponíveis pelo menor preço.

Logo, no livre mercado, quanto mais valor (riqueza) um indivíduo é capaz de oferecer aos outros, mais riqueza ele próprio consegue acumular.

Logo, no livre mercado, sempre há estímulo à produção de riqueza de forma mais eficiente.

Aqueles que produzem mais riqueza no livre mercado também acumulam mais e, portanto, tendem a continuar oferecendo mais riqueza, enquanto aqueles que produzem menos tendem a ser eliminados do mercado.

Há, portanto, no livre mercado, uma seleção natural dos indivíduos capazes de produzir riqueza de forma mais eficiente.

—– Monopólio

Monopólio é o comércio de produtos e serviços protegido de concorrentes pelo uso da força, usada para ameaçar e agredir outros que queiram fornecer o mesmo tipo de produtos e serviços.

Logo, todo monopólio depende do monopólio da força. Esse monopólio da força pode ser chamado de estado.

O preço de um produto ou serviço dentro de um monopólio sempre é maior que na livre concorrência.

– Ética

Ética é o estudo de quais ações podem ser permitidas ou proibidas numa sociedade.

A sociedade se constitui de interações interpessoais.

A lei (jurídica) é a regra que define quais ações são permitidas ou proibidas.

A lei não pode definir que uma mesma ação seja permitida e proibida ao mesmo tempo, caso contrário ela falharia em definir cada ação como permitida ou proibida.

A lei não pode deixar de definir se uma ação é permitida ou proibida.

Duas ações são conflituosas quando um indivíduo que fizesse uma ação impedisse outro indivíduo de fazer a outra, sendo as duas ações possíveis.

Se duas ações conflituosas fossem permitidas, a lei falharia em definir qual das duas é permitida, pois uma delas impossibilitaria a outra.

Logo, as ações permitidas pela lei não podem ser conflituosas entre si.

Todo conflito entre ações acontece quando duas ações têm a intenção de usar o mesmo meio ao mesmo tempo para fins excludentes entre si.

Logo, a lei não pode permitir que dois indivíduos decidam sobre o uso do mesmo meio ao mesmo tempo.

Logo, a lei deve determinar um único usuário legítimo para cada meio.

Esse usuário legítimo pode ser chamado de proprietário, e o meio que ele pode usar, propriedade.

Logo, a lei é a regra da propriedade privada.

— Apropriação

O uso de um meio (recurso) sem dono é livre de conflito. O indivíduo que faz esse uso se torna o proprietário, caso contrário a lei permitiria conflitos com outros que tentassem usar o recurso.

— Armazenamento

O armazenamento (poupança) de uma propriedade (recurso) constitui um uso dela pelo proprietário.

— Abandono

A propriedade pode ser considerada abandonada apenas se não estiver demarcada (não for evidente que ela possa estar em uso pelo proprietário), ou por decisão do proprietário.

— Demarcação

Para que a lei seja seguida, deve ser evidente que propriedades pertencem a proprietários. O proprietário deve, portanto, demarcar (tornar evidente) sua propriedade.

—- Transferência

Um proprietário pode transferir parte, ou a totalidade, do seu poder de decisão sobre a propriedade para outro.

—– Contrato

Um contrato se constitui da transferência do poder de decisão sobre o uso de propriedades, podendo essas transferências ser condicionais a certas situações (estados de coisas).

—- Violação da Lei

Ao violar a lei, um indivíduo deixa de participar da sociedade legal.

Logo, ao violar a lei, um indivíduo perde parte, ou a totalidade, das suas propriedades.

Todo crime se constitui de uma violação da lei.

—– Punição

A perda da propriedade do criminoso (violador da lei) pode permitir, mas não determinar, que ele seja punido.

Toda punição se constitui do uso dos recursos que pertenciam previamente ao criminoso pelos indivíduos que aplicam a punição.

*- Julgamento

Algumas pessoas acreditam que é necessário um devido processo legal para que o julgamento de um crime seja legítimo. Isso pode incluir uma estrutura específica de tribunais, um processo específico feito com juízes, etc. Apesar de tribunais poderem ser estabelecidos e utilizados por contratos, eles não têm uma autoridade especial de julgar crimes.

É preciso diferenciar, dentro da ética, o que faz parte da ética intrinsecamente e o que é construído com base nela pela vontade das pessoas. O indivíduo é um elemento intrínseco da ética, ela se aplica apenas a indivíduos. Esses indivíduos, através de contratos, podem se comprometer a aceitar o julgamento de tribunais, mas esse julgamento não tem autoridade sobre todos os indivíduos. Todo indivíduo, perante a lei, tem a mesma capacidade de julgar crimes, não existem indivíduos, muito menos coletivos, especiais, com autoridade sobre os outros, com mais legitimidade de julgar crimes.

É possível que pessoas confiem no julgamento de um tribunal, e inclusive certas estruturas de julgamento tendem a produzir julgamentos mais justos que outras, mas isso é uma decisão das pessoas, e não um elemento intrínseco da ética.

A legitimidade do julgamento de um crime nunca está em quem, ou que estrutura coletiva, o julga, mas sim na ação julgada ser um crime ou não, ou seja, violar propriedade ou não, e as evidências serem suficientes para afirmar que essa ação foi feita. Todo indivíduo pode julgar um crime e agir de acordo com a perda de propriedade do criminoso, o que pode permitir certos tipos de punição.

Fiat promete meio milhão de reais em promoção

Primeiro pega R$ 3,3 bi de empréstimo no BNDES (veja aqui os detalhes), para em seguida oferecer R$ 500 mil de prêmio em promoção realizada juntamente com a Globo no programa Big Brother. Sendo também a montadora patrocinadora do programa: Seria absurdo especular sobre essa ser uma maneira de repassar dinheiro de imposto à emissora de forma menos direta? Não deixe de comentar.

USP cancela matrícula de alunos de colégios militares

“Uma decisão da Universidade de São Paulo (USP) de cancelar matrículas de estudantes de colégios militares aprovados no vestibular por meio do Sistema de Seleção Unificado (Sisu) mobilizou, na tarde de ontem, o Comando do Exército e o Ministério da Educação. A corporação classificou a medida da universidade como uma retaliação ao governo Jair Bolsonaro.”

Fonte: UOL

Fraternalha atinge 5000 curtidas no Facebook

Fraternalha cinco mil

A página Fraternalha atingiu hoje o número expressivo de 5 mil curtidas e entrou para o panteão dos maiores expoentes da liberdade em território brasileiro.

Segundo um dos fundadores, “levar a liberdade em forma de humor é umas formas mais eficientes de se fazer entender principalmente em uma causa tão justa como essa”.

Obrigado a todos pela participação! São vocês que fazem o show! #Fraternalha

Pensando o Brasil – Uma crítica ao plano de governo do partido dos trabalhadores

O projeto Pensando o Brasil consiste em analisar o plano de governo de Fernando
Haddad, candidato à Presidência da República pelo Partido dos Trabalhadores. Buscou-se avaliar a viabilidade econômica das propostas apresentadas, utilizando fontes, dados, pesquisas e informações. A conclusão é que a maior parte das propostas ou são irrealizáveis ou as possíveis trariam danosos efeitos colaterais à população brasileira.
Exemplo disso é que a palavra “investimento”, tendo o Estado como seu condutor, aparece 75 vezes. O plano visa aumentar investimentos públicos na ciência e tecnologia, na retomada de 2800 obras públicas, na construção de 2.000.000 (dois milhões) de casas populares, nas Forças Armadas, na retomada da industrialização, no Judiciário, Internet,
saúde (aumentando para 6% do PIB), educação (aumentando para 10% do PIB), na cultura e artes, no esporte, em infraestrutura, meio ambiente, agronegócio, turismo, transporte e etc. Acompanhado da elevação dos gastos está o aumento de impostos sobre lucros e dividendos, ponto que, na atual conjuntura, traria desestímulo à produtividade.
Como expandir a responsabilidade do Estado brasileiro pela gestão de tantas áreas e proporcionar equilíbrio fiscal é uma questão que não foi respondida satisfatoriamente.

No link, versão gratuita e completa em PDF para Download.

Boa leitura!

PENSANDO O BRASIL – UMA CRÍTICA AO PLANO PT – FINAL

Três pilares da economia austríaca – A economia do indivíduo

Por: Paulo Garcia

Introdução

A tradição herdada e repassada por Mises fundamenta a ciência econômica como uma ciência apriorística [1]. Da praxeologia estuda-se a ação. Do estudo minucioso da ação, através de um individualismo metodológico [2], utiliza-se da dedução para que seja possível descobrir, analisar e avaliar as leis econômicas, dos impactos das ações, ao que remete a economia.

O estudo econômico, sobre trocas diretas ou indiretas, depende de duas áreas de conhecimentos extremamente importantes. O primeiro é o funcionamento da ação, que está fortemente entrelaçado com o segundo, que é uma teoria de valor [3]. Conhecendo ambos, pode-se então incorrer ao estudo econômico, sem erros crassos sobre o ponto de partida.

Ação, troca e mercado.

Agimos via utilização de recursos que são meios para alcançar um estado de satisfação maior que o anterior a ação – nunca um estágio equivalente ou pior – com a redução de algum desconforto. Caso contrário, não há ação. Recursos são escassos e possuem efeitos limitados. Essa escassez nos obriga a agir [4]. Também é fato que, ao agirmos, buscamos naquele instante satisfazer sempre – na medida do possível de agir – uma necessidade mais urgentemente desejada.

Ação e escassez também explicitam os fatos de que 1) não alcançamos todos os fins simultaneamente. Portanto, 2) agir sempre envolve escolher. Se agimos para alcançar um fim a, não podemos empregar os mesmos meios da ação de a para alcançar um fim excludente b [5]. Portanto, ao agir, o agente demonstra qual é o fim mais urgente a ser atingido naquele momento. Demonstra uma preferência pelo fim buscado – ao agir – sobre outros fins que foram rejeitados, i.e., que passaram a ser impossibilitados de serem alcançados naquele instante. Assim, ações e respectivos fins podem ser categorizados em números ordinais, correspondendo as preferências do agente. Se ajo em função de a, traduz-se que b, e outras demais possibilidades de ações e fins buscados, como menos desejáveis que o primeiro.

Se agir significa escolher empregar meios para realizar fins – mesmo que esses meios sejam, no mínimo, tempo e energia –, ao mesmo tempo em que significa buscar uma satisfação maior, a troca – enquanto uma ação livre – parte dos mesmos princípios. Quando um bem econômico – seja dinheiro, mercadoria ou serviço – é trocado, troca-o, visando o efeito em um resultado futuro, advindo dessa ação [6]. Pode-se concluir que trocar é empregar certos meios, substituindo-os, para atingir um estágio maior de satisfação. Escolhe-se a situação posterior à situação anterior a troca. Prefere o que será recebido em retorno, em contraste ao que possuía anteriormente.

Dados tais fatores, percebe-se um dos erros mais graves dos economistas clássicos – que deu brechas às abominações marxistas e socialistas em geral. Diferente do que se dizia, o mercado, enquanto constituído de diversas trocas voluntariamente feitas – mantidas inalteradas as demais circunstâncias – não é, nem em um “modelo ideal”, um “jogo de soma zero”. Não se troca – e nem busca trocar – um bem por outro equivalente, mas sim por um mais intensamente desejado, i.e., de maior preferência em uma escala de ordem.

É, naturalmente, uma rede de ações livres, em que indivíduos, como em toda e qualquer ação, busca trazer uma situação preferível à situação anterior. Uma “tecnologia” dada pela razão humana, que através da percepção e preferência sobre as benesses da cooperação e da divisão de trabalho [7], constantemente amplia a satisfação de seus participantes, livrando-os de seus desconfortos.

Atribuição de valores:

            Os economistas clássicos, por mais que estivessem intuitivamente precisos em diversas teorias, falharam na busca do estabelecimento de uma teoria do valor. A teoria de mais destaque foi a teoria do valor-trabalho [8], que teve grande influência sobre os tratados de Smith, Ricardo e, posteriormente, serviu de ponto base para os diversos erros marxistas.

Um dos mais conhecidos questionamentos sobre a teoria do valor-trabalho foi feito pelo próprio Adam Smith. Ficou conhecido como “paradoxo da água e do diamante”. Smith questionou o baixo valor da água em relação à sua necessidade fundamental para a humanidade em diversos aspectos. Contrastou com o diamante, material muito menos “útil”, que ainda assim possuía um valor exorbitante [9].

A resposta dada de “oferta e demanda” de fato esteve correta. Mas assim como toda a economia em si, tal investigação não deve ser dada à dados empíricos em função de comprovar ou rejeitar uma teoria. Também não é através deles que a lei de oferta e demanda possui sustentação. Pelo contrário, deve-se recorrer à dedução, o que foi feito por Menger, Jevons e Walras. Os marxistas, na tentativa de manter-se em seu baú de flatus vocis, travestidos de revelação quase religiosa, divergem entre continuar chamando a economia, assim como a “oferta e demanda” e a teoria do valor subjetivo – que veio a desmantelar teoria do valor-trabalho, e consequentemente, outras teorias marxistas – de invenções burguesas; e apontar a escassez como um fator não natural da realidade, mas como uma causa induzida pelos capitalistas.

Em busca fixar o valor objetivo e explicar os preços aparentemente “paradoxais”, estabeleceram as coisas como, objetivamente, “pertencentes de classes” para a realização de determinadas funções, o que levou a erros conceituais – não só dos marxistas. Uma maçã, que seria de uma “classe dos alimentos”, teria seu valor de uso – diferente de seu valor-trabalho – maior que o valor de uso de um simples relógio, por exemplo. Ainda assim, nem mesmo o paradoxo do valor seria resolvido. A separação entre valor de uso e valor-trabalho mantinham-se inadequadas por si. Consequentemente, continuavam inadequadas em conjunto.

A explicação dada por Menger entra em perfeita conformação com a praxeologia. Um bem econômico, em termos praxeológicos, é um meio para alcançar um fim. Porém, não há um fim predeterminado sobre os bens, que os transformem objetivamente em meios. Também não estão constituídos nos átomos dos recursos, os seus valores ou utilidades. Quem atribui o fim ao recurso, transformando-o em um bem econômico, dando-o a função de um meio, é o indivíduo que age.

O agente, i.e., o indivíduo, valoriza-o ao atribuí-lo um uso. Tal atribuição só é possível enquanto há a expectativa de que esse algo pode ser usado como um meio para alcançar um fim valorizado. Uma laranja não necessariamente servirá para matar a fome, ou a sede. Pode-se usá-la com outros propósitos. O mesmo pode ocorrer com qualquer outro bem tangível, como uma casa, ou intangível, como uma informação específica.

Outro exemplo, devo ao libertário Raphaël Lima: se um avaliador imobiliário – e aqui acrescento que esse avaliador possa ser o melhor, ou então que fossem todos avaliadores existentes agindo em perfeita concordância – atribui a uma casa em um valor milionário. Se ninguém a compraria sobre tal preço ou valor, assim como, simultaneamente, seu atual dono a venderia, ou trocaria por menos; ela realmente possui tal valor? De mesma forma, nada vale uma nota de real, se ninguém o considerar como uma moeda de troca.

Como afirmado anteriormente, valores são dados a partir dos fins que o meio valorado pode alcançar. Porém, essas três percepções – valor, meio e fim – são atribuições subjetivas ao homem agente, não por um parâmetro mensurável, fixo e imutável, dado na natureza, ou conspirado pela burguesia.

Para que se aja, em busca de alcançar determinado fim mais urgentemente desejado, suponhamos o uso um determinado meio. Uma vez que o fim dado ao meio é plenamente alcançado, mantidas inalteradas as demais circunstâncias, suponhamos que o recurso não tenha se exaurido. Se ocorre a) e ainda há outras menos urgentes [10] utilidades para esse recurso, ele possuirá um valor menor agora, derivado das expectativas de seu novo uso. Por outro lado, se ocorre b) em que não mais absolutamente nenhuma utilidade, ou expectativa de uso futuro para o recurso em questão, seu valor atribuído será nulo. A mutabilidade constante existente nos valores dados, na medida em que agimos [11] ou mudamos nossas percepções, são mais uma comprovação de que um valor objetivo e determinado não corresponde com a realidade.

Por fim, um valor atribuído não é composto objetivamente por números cardinais, não sendo mensurável.  Os termos quantitativos, i.e., preços, dados em cálculos econômicos, passam a aparecer em um sistema de mercado complexo, que conta com o uso de uma moeda [12]. Da mesma forma que ações demonstram, aprioristicamente, escolhas, valores traduzem-se em graus de intensidade pelo quanto satisfazem uma necessidade mais ou menos urgente de um agente. Traduzem sobre meios e fins como mais – ou menos – desejáveis em relação aos respectivos demais [13].

Preferência temporal em níveis: o balanceamento das ações

Se agimos para chegar a um estado de satisfação maior – caso contrário não agiríamos –, nota-se que preferimos possuir mais bens a possuir menos bens, pois assim os desconfortos serão menores. Se buscamos satisfazer a necessidade mais urgentemente visada – caso contrário, agiríamos de forma diferente -, podemos concluir que ação leva em consideração o tempo de causa e efeito da ação, i.e., o tempo para chegar ao fim desejado. Isto porque não temos todo o tempo ao nosso dispor. Para nós, o tempo é um recurso escasso.

O tempo também é um fator levado em consideração em relação ao quanto o efeito “satisfatório” de um fim durará. Por fim, valorizaremos e preferiremos que os bens sejam obtidos o mais rapidamente possível, ao invés de recebe-los depois. Da mesma forma, preferiremos que os bens durem por mais tempo, ou de outras formas, nos provenham uma maior satisfação.

Se possuíssemos somente o desejo de atender urgências a curto prazo, tenderíamos a optar exclusivamente pelos bens de primeira ordem, i.e., bens de consumo, de curto prazo em causa, mesmo que estes impliquem em curto e menor efeito. Qualquer indivíduo seria unicamente consumista, de preferência temporal extremamente elevada [14]. Queimaria todos os seus recursos em troca de recompensas imediatas. Sempre consumindo recursos, nunca poupando ou investindo. Todo e qualquer homem agente simplesmente tomaria, quase que exclusivamente, decisões inimagináveis.

Por outro lado, se fosse exclusividade a preferência por mais bens a menos bens, o efeito seria exatamente o oposto. Uma vez que os investimentos e os bens de longo prazo, ou bens de ordem elevada – na linguagem econômica – trazem, em via de regra, mais bens – a um prazo maior – do que os de consumo e curto prazo, optaríamos exclusivamente pela poupança, nunca ao gasto. Sempre poupando, nunca consumindo, nem investindo. A preferência temporal da sociedade seria extremamente baixa ou nula.

Esses dois aspectos da ação humana, quando relacionados entre bens de diferente temporalidade, ou de diferente intensidade em efeito, se contrapõem. Dão capacidade ao que é chamado de preferência temporal. A preferência temporal [15] age como um balanceamento entre poupança, investimento – a longo prazo – e puro consumo. Nas palavras de Hans H. Hoppe, ela “determina ao mesmo tempo o tamanho do prêmio que apresentam os bens presentes em relação aos bens futuros e o montante de poupança e de investimento” [16] e vice-versa. Determina, aponta Hoppe, o montante de poupança e investimento. Vale ressaltar, também por ele, é que, na medida em que necessitamos consumir algum recurso – além de que eventuais anseios por consumo aparecem-, por mais que a preferência temporal seja baixa, jamais alcançará um “zero absoluto”.

Como toda ação, agir de forma a poupar recursos para um consumo mais tardio, requer a expectativa de uma recompensa mais satisfatória do que teria ao agir de forma diferente, i.e., consumir ao invés de poupar. Não deixaríamos para consumir depois, um recurso mais urgentemente necessário, sem que se esperasse uma recompensa maior ao optar por essa escolha.

Sendo preferência temporal a representação da escolha – ou não escolha – pela poupança, em relação ao consumo, que parte da ação individual, percebe-se: ao notar a diferença de julgamentos de valor entre indivíduos, e a inconstância na atribuição de valor subjetivo de cada um; que a preferência temporal é 1) igualmente inconstante para cada indivíduo e 2) igualmente, em relação aos valores subjetivos, diferente entre diversos indivíduos.

Na prática, indivíduos pouparão ou consumirão, mais ou menos recursos, em diferentes períodos de suas vidas [17]. Da mesma forma, indivíduos diferentes pouparão ou consumirão, mais ou menos recursos, de formas diferentes entre si. Isto porque, de fato, há com frequência casos em que poupar recursos se torna uma opção viável, uma vez que pode trazer resultados mais desejáveis a longo prazo. Cabe ao agente optar entre gastar ou guardar.

Dadas essas diferenças, nota-se que a preferência temporal pode ser percebida em graus diferentes. A poupança se traduz em uma queda de preferência temporal. Sendo assim, preferência temporal baixa é a frequente escolha por guardar, de forma a – buscar – ser mais bem recompensado futuramente, via um consumo futuro do recurso em questão, ou até mesmo através do investimento a médio ou longo prazo.

Por outro lado, o consumo imediato de um recurso, em busca de uma satisfação mais urgente, enquanto abdica de uma satisfação, ou recompensa, expressivamente superior no futuro, é mostrada como uma elevação na preferência temporal. Um indivíduo de preferência temporal alta é aquele que busca essa forma de recompensa a curto prazo com maior frequência.

 

[1]: MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010; HOPPE, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013, esp. Cap. 6; HOPPE, H. H. A Ciência Econômica e o Método Austríaco, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010. GARCIA, P. Hoppe e a Ciência Econômica de Mises. Disponível em: <http://voxbrasilis.com/hoppe-e-a-base-economica-de-mises/> Acesso em: 18 de julho de 2018.

[2]: ROTHBARD, M. N. O Individualismo Metodológico. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1253> Acesso em: 18 de julho de 2018. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 2..

[3]: JEVONS, Stanley. A Teoria da Economia Política & MENGER, Carl. Princípios da Economia Política, São Paulo: Editora Abril, 1983. Disponível em: <http://portalconservador.com/livros/Carl-Menger-Principios-de-Economia-Politica.pdf> Acesso em: 19 de julho de 2018. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 4.

[4]: GARCIA, P. Fundamentos da Ética Libertária: Escassez, ação e a origem dos conflitos. Disponível em: < http://www.culturalibertaria.com/2018/04/fundamentos-da-etica-libertaria-por.html> Acesso em: 19 de julho de 2018. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 1.

[5]: Determinados fins não podem ser alcançados simultaneamente, pois são excludentes entre si, já que utilizam de um mesmo meio, de formas lógica ou fisicamente impossíveis de serem convergentes. Um exemplo é virar a cabeça para a esquerda e para a direita simultaneamente.

[6]: Seja receber em dinheiro, serviço, mercadoria, um retorno em favor, ou a simples satisfação de dar algo.

[7]: MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 8. A Teoria da Exploração do Socialismo Comunismo / Eugen von Böhm-Bawerk. — São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. 205p.

[8]: HORWITZ, Steve. A teoria do valor-trabalho ainda assombra a humanidade e segue causando estragos. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2540> Acesso em: 19 de julho de 2018

[9]: SMITH, A. (1985) A Riqueza das Nações: investigação sobre sua natureza e suas causas, São Paulo, Nova Cultural, 2ª edição.

[10]: As necessidades, antes menos urgentes, que atribuiu uma utilidade ao recurso, podem ser mais ou menos valorizadas após uma mudança na escala ordinal de valores.

[11]: Se agimos e alcançamos plenamente um fim considerado urgente, esse fim a ser alcançado já não é mais algo a ser buscado. Portanto, agir, utilizar de recursos em geral, e até mesmo alcançar fins, são situações constantes que alteram frequentemente nossas valorações e preferências. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 4

[12]: MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 12

[13]: Por fim, nem toda noção de valor de uso objetivo é algo a ser rejeitado. Um conceito adequado de valor de uso objetivo é sobre a capacidade de uso de um meio para atingir, com determinada eficiência, um fim hipotético estabelecido de forma específica.

[14]: Ver adiante.

[15]: HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: o Deus que falhou, São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2014. Cap. 1. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 5. Teoria positiva do capital / Eugen von Böhm-Bawerk. — Nova Cultural. 1986. (Os economistas)

[16]: HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: o Deus que falhou, São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2014. P.32

[17]: HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: o Deus que falhou, São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2014. P.34-39.

Resenha – O Capital – Marx, Karl

Por: Marcel Di Bernardo

O Capital, livro mais famoso do pensador alemão Karl Marx completa, em 11 de setembro de 2017, 150 anos. No Livro 1, que levou cerca de 15 anos para ser finalizado, Karl Marx apresenta sua visão acerca do processo de produção e circulação do capital desde sua origem, a mercadoria e sua condição fetichista, a manifestação do trabalho como a verdadeira fonte geradora do valor e a redução de sua força à mera mercadoria a ser explorada pelo capital, a mais-valia, salário e acumulação primitiva.

Para compreender a obra, é necessário entender o método materialista histórico dialético criado e desenvolvido pelo autor a partir da influência que este teve do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Esse método, usado por Marx, no qual a tese de que o Homem trabalha para atender às suas necessidades é demonstrada a síntese “negação da negação”, que conduz as forças e as relações materiais ao largo da história e nos direciona no decorrer de toda obra.

O leitor que negligencia – seja por descuido, seja por desconhecimento, a metodologia materialista dialética presente na obra O Capital, certamente fracassará no objetivo de dominar os conceitos-chave do pensamento marxiano.

A partir desse ponto que Marx passa a investigar o modo de produção capitalista, começando pelo seu núcleo: amercadoria.

O primeiro capítulo – para muitos considerado a espinha dorsal de sua teoria sobre o modo de produção capitalista – Marx analisa a mercadoria, assim como a formulação de seu valor através da teoria ricardiana do valor trabalho.

A mercadoria tem a finalidade de suprir as necessidades humanas, sem entrar no mérito de quais seriam essas necessidades, se “do estômago ou da fantasia”, como cita o autor. Assim, Marx começa analisando o valor de uso, ou seja, a utilidade que um determinado objeto possui.

Na segunda seção da obra, Marx afirma que a primeira forma de manifestação do capital é o dinheiro, mercadoria que estabelece a universalidade entre todas as  demais, e sua maneira de circulação, representada por D-M-D, portanto, em contradição à circulação de mercadorias em sua forma inicial M-D-M. Novamente pode-se notar o emprego do pensamento dialético na exposição do processo de circulação no regime capitalista.

Ao longo de toda obra, Karl Marx pretendeu mostrar as diversas contradições inerentes ao capitalismo enquanto modo de produção, desde sua gênese, a produção da mercadoria, expondo a dualidade de valor de uso e valor de troca, como da irracionalidade fetichista; a dualidade manifesta do trabalho, fator incorporador de todo valor presente nas mercadorias, em trabalho concreto e trabalho abstrato; a exploração desse trabalho pelo capital através da mais-valia, ou seja, os salários pagos aos trabalhadores consistiam numa pequena porcentagem do valor equivalente ao que era produzido, que, por sua vez, também nos é apresentado sob o prisma dialético, aparecendo na forma de mais-valia absoluta (intensificação do ritmo de trabalho para aumento da produtividade), e mais-valia relativa (aumento da produtividade com inovação tecnológica e redução do ritmo) e, por fim, a reprodução do capital, legitimado pela propriedade privada dos meios de produção, divorciando o produtor, a classe proletária, de todo fruto de sua própria produção.

Na última seção o autor discorre sobre o processo de acumulação do capital, sendo  não o desenrolar do capitalismo como modo de produção, mas sim a fase que o possibilitou. Marx parte para a análise histórica, verificando as circunstâncias que permitiram o surgimento do sistema capitalista desde sua etapa primitiva.

Disso surge a tese da acumulação primitiva, um intrincado processo histórico onde as relações de poder acabariam por determinar qual grupo se tornaria detentor dos meios de produção e qual grupo seria subjugado ao ponto de ter que vender a única mercadoria que ainda lhe resta: sua força de trabalho.

Marx rebate a afirmação de que o capitalismo seja resultado da parcimônia, do labor, da poupança e planejamento pois, para ele, o antagonismo de classes era visível desde o período feudal, passando pela fase mercantilista, onde nações dominavam outras, colonizações por parte das potências europeias, utilizando da força para expropriar a riqueza alheia cujo ponto culminante dessa exploração ganharia forma no capitalismo e criou condições para o surgimento da industrialização, fazendo a transição da acumulação primitiva para acumulação do capital.

Fundamentos da Ética libertária

Por: Paulo Garcia

 

A ética em si

As fundamentações de ética existem quase que desde os primórdios da filosofia, e a mesma é carregada de uma influência direta em suas diversas áreas (metafísica, ontologia, epistemologia, etc.). Sobre ética, define-se algo, a meu ver, praticamente semelhante ao conceito base do imperativo categórico kantiano: o conjunto de dever – necessário, universal e incondicional – de ação aplicado à determinada classe ontológica. Quando se elimina o relativismo, o utilitarismo, etc. e adota-se o racionalismo para a ética [1], a alinhamos com algumas regras propostas por filósofos, como o próprio Kant.

Mais diretamente, entende-se também que a ética, como nos referimos aqui, é um conjunto de normativos aplicáveis universalmente aos humanos, tendo como dependência a ontologia – e, por consequência –, além da realidade ao qual ela é aplicada. Assim, a ética é uma teoria deontológica – como será indiretamente mostrado aqui -, não consequencialista, julgando os meios das ações. Diferencia-se da moral, uma vez que a moral é um julgamento subjetivo do que é melhor ou pior, relativamente bom ou relativamente ruim, influenciada geralmente por aspectos gerais da cultura e dos costumes, enquanto a ética, que julga o certo e o errado referente à ação, fundamenta ações morais – no sentindo kantiano -, guiada justamente pela razão [2].

A ética também se distingue de lei – no conceito de legislação jurídica -, porém, uma lei, para que seja correta, deve ser guiada e fundamentada a partir da ética. Os direitos naturais, fundamentais e absolutos, existem na medida que o ser e suas verdades ontológicas existem. Já a ética fundamenta-se a partir da possibilidade de existência e na função de evitar os conflitos, sempre mantendo a conformidade com esses direitos absolutos. A ética, como conhecemos, também é referente a nossa existência como seres racionais, ou agentes de moral, como nomeia Kant.

Portanto, entende-se que os conflitos estão presentes na ausência do cumprimento, ou mantimento, da ética, i.e., em sua violação. Os direitos possuem origem atrelada indivíduo – e toda sua categoria – enquanto ele mesmo. Por sua vez, a possibilidade dos conflitos, assim como a existência de uma ética, e sua necessidade de aplicação, surgem devido á vivermos em um mundo com indivíduos que agem – ou não haveria um conflito a ser racionalmente evitado ou resolvido -, além desse mundo possuir escassez material, pois caso contrário, essas ações não entrariam em conflitos.

Escassez, ação e a origem dos conflitos

Já demonstrado que as pessoas agem e usam recursos escassos [3], que são, no mínimo, seu corpo – pois não se pode agir sem o corpo, sendo algo axiomático -, tempo de vida e o local onde seu corpo ocupa; para que fins sejam alcançados. Em um mundo onde existisse apenas uma pessoa agindo racionalmente, não seria necessária a aplicação de uma ética [4], embora os direitos de propriedade e autopropriedade continuassem a existir, para a prevenção – servindo de base também para guiar a resolução – de conflitos, uma vez que eles não existiriam.

Mais precisamente, o que liga o fato de agirmos – mais precisamente da existência de mais de um indivíduo que age – e a existência da possibilidade de conflitos, é a escassez. “A escassez tange os meios materiais. Todos os recursos materiais são escassos, i.e., finitos, limitados de alguma forma.”, nas palavras do libertário André Simoni [5]. A escassez também se estende aos nossos tempos de vida. Se não houvesse absolutamente escassez alguma – o que significaria que nossos corpos e os recursos materiais seriam infinitos -, alcançaríamos todos os fins desejados instantânea e simultaneamente, pois não demandaria ação. Isto porque todo e qualquer recurso alcançaria simultaneamente o espaço-tempo. Consequentemente não demandaríamos o uso de recursos. Portanto, conclui-se que sem escassez não existiriam conflitos.

E uma outra delimitação física devida à (escassez), e que também prova essa escassez, pode ser observada pelo fato de que o mesmo recurso não pode ser usado simultaneamente para fins excludentes, e que ações contraditórias por “essência” não podem ser realizadas. Como exemplifica o autor de um artigo sobre o tema, Vinicius Scheffel, não é possível que eu abaixe e levante meu braço esquerdo simultaneamente [6]. Outro exemplo, dessa vez da impossibilidade de ações contraditórias, demonstrados por André; é de que não se pode ficar calado enquanto fala.

O conflito se dá justamente quando dois ou mais indivíduos passam a tentar usar o mesmo recurso escasso, simultaneamente, para fins excludentes. Por outro lado, não haveria conflito caso eu “usasse” uma casa alheia, apenas olhando-a, sem tocá-la ou interagir em tato com ela, apenas tendo-a em vista, com o fim de admirá-la. A partir do momento em que eu tento interferir em sua estrutura ou função, a ser usada pelo seu proprietário, i.e., emprega-la necessariamente em outro curso de ação, que impossibilitaria de que ela seja usada para uma finalidade desejada por outro indivíduo, o conflito passa a existir.

Aplicação ética

Devo fazer breves considerações sobre o indivíduo aqui, para que seja explicado a quem uma formulação ética é direcionada. O indivíduo humano é pertencente à uma classe ontológica capaz de realizar a práxis. Por sua vez, a práxis é uma ação propositada, ou seja, sem propósito não há práxis. A argumentação é um exemplo de ação propositada [7], em que é incorrida a formulação e verificação – de validade – de qualquer proposição, assim como da ética, o tema central a ser tratado aqui.

Temos como pré-condições práticas para a existência de conflito (1) mais de um ser capaz de realizar ação intencional e (2) a escassez. Os indivíduos são aqueles que realizam ações intencionais. A ética, por sua vez, se seguida estritamente, evita conflitos e deve ser direcionada a preservar os direitos dos indivíduos, de forma a prescrever e definir normas da ação humana. Só se necessita aplica-la àqueles que podem entrar em conflitos e são capazes de resolvê-los racionalmente. Também só são cabíveis, i.e., aplicáveis, normas de resolução de conflitos aos elementos que geram tais possibilidades de conflitos, como os recursos escassos, pois podem ser apropriados.

Como Hoppe exemplifica sobre o Éden, um lugar de superabundância, onde o consumo dos recursos não afetaria de forma alguma aos outros; o corpo e o lugar onde os corpos dos indivíduos ocupam ainda seriam recursos escassos. Sendo assim, a ética deveria tanger sobre o uso dos corpos e o lugar onde ocupam [8]. No caso do mundo de Crusoé, isolado em uma ilha, uma aplicação ética seria simplesmente desnecessária e impossível.

A influência da argumentação sobre a ética [9]

Para mostrar como é a influência direta da argumentação em uma ética racionalmente deduzida, devo recapitular o a priori da argumentação: (1) Não podemos argumentar e comunicar de que não somos capazes de argumentar e comunicar. (2) Argumentar contra a existência de significado nas palavras, pressupõe que as palavras possuem significados. (3) Qualquer afirmação e justificativa de um valor verdade é incorrido dentro de uma argumentação. (4) Proposições de argumentos alegam verdade e validade, portanto, argumentadores sabem a priori o que é alegar verdade e validade e seus significados. Esses fatos pertencentes à estrutura do “a priori da argumentação” resumidamente se definem após o axioma de que somos capazes de incorrer em uma argumentação, portanto, também capazes de alegar verdade e validade.

Quanto à argumentação em si, podemos obter mais verdades apriorísticas. Uma vez que argumentar que é uma ação, argumentar pressupõe ação, juntamente de todas suas categorias, incluso o uso de recursos escassos. Sobre ela, também sabemos que: (1) só pode ser fundamentalmente entendida a priori. (2) É uma troca de proposições, portanto, livre de coerção [10]. (3) Uma vez que as proposições não são dadas prontas, e sim formadas, argumentar – como ação – pressupõe o direito de controle sobre o próprio corpo (além do espaço onde esse corpo está ocupando), chegando à autopropriedade. (4) A argumentação tem a finalidade de convencer alguém a algo, ou ao menos desafiar alguém a te provar errado. Portanto, como troca, para argumentar deve ser pressuposto o reconhecimento mútuo da autopropriedade e a propriedade sobre o espaço em que o corpo atua. (5) Essa pressuposição da autopropriedade do oponente [11] em uma argumentação é reforçada, pois, sabendo que em uma argumentação, que busca reivindicar o valor verdade de uma proposição direcionada para alguém, dois cenários acontecem: o oponente passa a concordar, ou ele pode dizer “não”, e então, ambos no mínimo concordam de que discordam de algo. E para ambos os cenários, ele – o oponente – precisa do direito de decisão última do próprio corpo.

Como toda alegação de verdade, seja sobre a validade ou invalidade de um direito, proposição ou argumento, é criada, incorrida e decidida no curso de uma argumentação, toda justificativa é uma proposição argumentativa. Negar isso é uma contradição, uma vez que seria via argumentação. Uma vez que a ética passa ao mesmo processo, ela não pode racionalmente contradizer os valores e normas implícitos da argumentação – isto é, a justificativa ética não pode ser contraditória às condições formais da argumentação -, caso contrário, será uma contradição performativa. Disso também se entende que as normas significativas implícitas na argumentação possuem, como diz Hoppe, um status cognitivo especial de pré-condições práticas – e a argumentação é um assunto, não só cognitivo, mas também prático, como ele mesmo define – de objetividade e verdade.

Por razão, normas só podem ser consideradas justificáveis enquanto forem válidas. Tendo pré-condições lógicas e praxeológicas para a argumentação, ou seja, também para a ética, servindo assim de delimitações, negá-las cai em contradição. Uma outra delimitação extremamente importante, ao mesmo tempo completamente óbvia – mas deve ser ressaltada -, é pelo qual a ética deve permitir a sobrevivência humana, e esse é mais um motivo pelo qual as pessoas devem poder se apropriar – pois, com apenas posse, conflitos poderiam existir infinitamente – de recursos escassos na natureza, uma vez que eles são fundamentais para a sobrevivência. Sem eles, seria impossível argumentar, formular éticas, dentre outras coisas. Portanto, até como condição praxeológica – e necessária – humana, deve ser permitido o uso, não só do corpo, mas do espaço onde ocupa e dos recursos disponíveis na natureza.

Uma proposição feita em uma argumentação busca também reivindicar uma aceitabilidade universal. Ou seja, sua validade não deve ser relativa a quem ouve, mas sim pela consistência em si própria e da capacidade de compreensão do que é argumentar, vinda do ouvinte. O mesmo ocorre com uma norma, ou seja, uma proposta de norma deve ser universalizável. E da mesma forma, de que somente enquanto pode ser justificada, uma proposição pode ser válida; uma norma só pode ser universalizável, i.e., válida para todos sem exceção, se justificada – entrando em concordância com o imperativo categórico kantiano e com a regra de ouro da ética.

Se a argumentação implica que todos que possam entender um argumento devem ser capazes de ser convencidos por ele, a universalização da ética como princípio pode ser entendido como extensão fundamentada do “a priori da argumentação”, ou como Hoppe apelida, “comunicação e argumentação a priori”. Mas, como mostra a própria argumentação, a universalização não é o único critério. Somente com a universalização, ainda assim as mais ridículas regras seriam formuladas.

Toda argumentação feita é feita sendo pressuposta por seu argumentador de que pode ser justificada. E justificação é uma atividade livre de coerção, pois é uma atividade argumentativa e argumentação pressupõe a não coerção.

A ética argumentativa em si

Dadas as restrições praxeológicas e argumentativas sobre uma ética, podemos concluir uma ética baseada no a priori da argumentação e suas consequências, aplicadas aos indivíduos humanos, que são capazes de ação, cognição e argumentação. A primeira é que: uma vez que a ética é proposta em uma argumentação, ela deve propor a não violação dos direitos absolutos de autopropriedade e propriedade sobre recursos escassos presentes na natureza.

Sendo esse direito reconhecido, não pode ser revogado arbitrariamente, portanto a agressão é proibida, uma vez que agressão impossibilita ou restringe a decisão final sobre o próprio corpo, incluindo sobre a ação e a cognição. Em contraste, conclui-se que uma ética que não reconheça a autopropriedade, ou permita a agressão, é uma ética inválida.

Uma vez que, sem podermos utilizar dos recursos escassos da natureza à nossa volta, estaríamos mortos. A ética argumentativa conforma que devemos poder fazer a apropriação desses recursos. Em soma de todos os pontos acima – necessidade de universalização e da não agressão sobre o corpo -, da argumentação, podemos concluir que uma ética deve obedecer, em um âmbito geral, às mesmas conclusões do conhecido como “princípio de não-agressão” como outro teste formal. E essa não-agressão, uma vez que nos apropriamos de recursos presentes na natureza, deve se estender aos recursos que possuem proprietários.

Portanto, não só não devemos agredir os corpos de indivíduos alheios, como também não podemos interferir coercitivamente em seus recursos apropriados. A conclusão é de que esse princípio se estende a uma teoria geral de propriedade. Negar os pontos pressupostos acima, seria negar, via ação, o direito de propriedade alheio. Após essa decisão tomada, cai em contradição argumentar em favor de direitos de propriedade.

Apropriação Original [12]

Finalmente, pode-se perguntar: (1) quem possui o direito sobre algo e (2) como esse direito deve ser estabelecido? Assim como somos donos das decisões últimas sobre nossos corpos, a apropriação original deve estabelecer como e quem deve se tornar o dono de outro recurso escasso qualquer.

Como se apropriar de um recurso escasso, nunca antes utilizado, presente na natureza? Bom, a resposta direta é através de uma “mistura do seu trabalho” – termo utilizado por Locke [13] – sobre um recurso escasso, e por questão prática, indica-se que essa mistura do trabalho objeto seja perceptível, em outras palavras, intersubjetivamente verificável. E por que não outras formas? Bom, se a apropriação não por ação sobre algo, seria por uma forma de decreto ou pensamento. Mas caímos em alguns problemas nesse caso. (1) Como o próprio corpo seria inicialmente apropriado por decreto? Seria contraditório, pois para decretar algo, pressupomos controle do nosso próprio corpo! (2) E mais importante ainda, que também enquadra a apropriação por pensamentos: cairíamos em uma não resolução de conflitos, pois em apropriação por decretos, uma vez que existem decretos, ou pensamentos distintos (simultâneos ou não), somente um terceiro, quarto, quinto, ou n decretos se sobreporiam aos anteriores, podendo criar uma situação de conflito eterno.

Quanto a quem teria esse direito, a resposta fornecida pela lei de propriedade [14], é o apropriador original, usando o formato apontado como o correto de apropriação, i.e., a mistura do trabalho. Uma vez que não o primeiro apropriador, mas futuros retardatários fossem os donos legítimos de algo, novamente cairíamos em alguns problemas. O primeiro é a apropriação do corpo alheio, que já reconhecemos como um direito inválido e contraditório – e o mesmo em apropriação por decreto -. Seja a apropriação do retardatário, também poderíamos cair em uma situação eterna de o “último a tomar a posse” de algo se tornando seu dono legítimo, podendo nunca acabar existindo um último definitivo a ser o dono de algo. E esse problema piora, uma vez que se passe a considerar esse formato como algo atemporal, pois sempre no futuro, haverá um próximo proprietário sobre algo. Assim, se alguém tivesse de obter o direito de uso sempre do futuro retardatário, ninguém poderia usar nada, uma vez que sempre haveria um retardatário situado em outro ponto do tempo.

Portanto, a propriedade designada a segundos ou terceiros donos proprietários deve ser feita legitimamente através de transferências voluntárias – ou abdicação de propriedade -, sendo nunca permitido a decisão unilateral e o uso da força.

Agradecimentos

Gostaria de agradecer imensa e especialmente ao libertário Nicholas Ferreira, do grupo do “Cultura Libertária”, pela revisão dedicada ao artigo, correções e a ajuda – mesmo que sem perceber – na resolução de um entendimento ético. Muitos pontos aqui devo a ele.

Referências:


[1]: Hoppe, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013, cap. 7; Rothbard, Murray N., A Ética da Liberdade, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010. Parte I.[2]: Kant, I. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os pensadores).[3]: Sobre a ação humana e o a priori da ação: Mises, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010; Hoppe, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013, esp. Cap 6 e 7; Hoppe, H. H. A Ciência Econômica e o Método Austríaco, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010.[4]: Para análise da aplicabilidade de uma ética e reconstruções nos moldes da ilha de Crusoé, veja: Rothbard, Murray N., A Ética da Liberdade, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010. Parte II.

[5]: Vídeo de mesmo tema, do libertário André Simoni:https://www.youtube.com/watch?v=PpDBAGqQwoA

[6]: Artigo sobre a ética argumentativa, do libertário Vinicius Scheffel:http://www.culturalibertaria.com/2018/04/a-etica-argumentativa-hoppeana-por.html

[7]: Sobre o a priori da argumentação e seus corolários: Hoppe, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013, cap. 7; Hoppe, H. H. A Ciência Econômica e o Método Austríaco, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010; Hoppe, H. H. The Economics and Ethics of Private Property2[PG28] ª edição, Ludwig von Mises Institute, 2006, cap. 13, (Disponível também em:http://www.culturalibertaria.com/2018/04/cap-13-economia-e-etica-da-propriedade.html ehttps://mises-media.s3.amazonaws.com/Economics%20and%20Ethics%20of%20Private%20Property%20Studies%20in%20Political%20Economy%20and%20Philosophy_3.pdf).

Mais materiais também em:

https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=200

http://www.hanshoppe.com/2015/02/portugese-translation-of-the-justice-of-economic-efficiency/

https://ideallibertario.wordpress.com/2015/07/31/a-etica-argumentativa-hoppeana/

[8]: Hoppe, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013, cap. 1 e 2; Rothbard, Murray N., A Ética da Liberdade, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010. Parte II.

[9]: Sobre argumentação e ética, os mesmos pontos da nota “7”.

[10]: Explicitando a atividade prática de argumentar como uma troca de proposições – como define Hoppe -, temos um desenvolvimento importante do conceito, implicando-o com ausência de coerção. Sobre isso, o Libertário André Simoni diz:

Elas [trocas] necessitam do respeito de ambas as partes. O indivíduo tem que respeitar o outro como um fim em si mesmo. Por consequência [deve] reconhecer a autonomia de tomada de decisões do outro indivíduo. Logo, isso é uma norma essencial – deôntica – para uma troca e para uma argumentação – que é um tipo de troca. […] Agressão é quando você impõe sua vontade sobre o outro indivíduo, negando a autonomia [do outro indivíduo] de tomada de decisões […] – reconhecendo que o outro indivíduo é simplesmente um meio para aquela ação -. Ao agredir […] está demonstrando que o indivíduo é um meio. Logo, você não consegue agredir e trocar proposições. […] emitir proposições é diferente de trocá-las. O problema não está […] nas proposições em si, mas no fato de assumir que estaria trocando. É impossível agredir e trocar pela própria estrutura de agressão – e de troca […].

Material completo em:https://www.youtube.com/watch?v=1gKwDOvC_3M&t=94s

[11]: Como a argumentação se divide sempre em ao menos dois oradores, suas posições, dadas subjetivas em relação a si e ao outro são “proponente” e “oponente”, respectivamente.

[12]: Novamente, as referências das notas “7” e “11” são recomendadas.

[13]: Locke, J. Dois Tratados do Governo Civil, Coimbra: Edições 70, 2006, esp. O Livro II: Segundo Tratado.

[14]: Devo a precisão do termo sobre o ponto apresentado ao libertário Nicholas Ferreira.

Recomendações de leituras relacionadas.

Hoppe, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo.

Rothbard, Murray N., A Ética da Liberdade.

Hoppe, H. H. A Ciência Econômica e o Método Austríaco.

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