Três pilares da economia austríaca – A economia do indivíduo

Por: Paulo Garcia

Introdução

A tradição herdada e repassada por Mises fundamenta a ciência econômica como uma ciência apriorística [1]. Da praxeologia estuda-se a ação. Do estudo minucioso da ação, através de um individualismo metodológico [2], utiliza-se da dedução para que seja possível descobrir, analisar e avaliar as leis econômicas, dos impactos das ações, ao que remete a economia.

O estudo econômico, sobre trocas diretas ou indiretas, depende de duas áreas de conhecimentos extremamente importantes. O primeiro é o funcionamento da ação, que está fortemente entrelaçado com o segundo, que é uma teoria de valor [3]. Conhecendo ambos, pode-se então incorrer ao estudo econômico, sem erros crassos sobre o ponto de partida.

Ação, troca e mercado.

Agimos via utilização de recursos que são meios para alcançar um estado de satisfação maior que o anterior a ação – nunca um estágio equivalente ou pior – com a redução de algum desconforto. Caso contrário, não há ação. Recursos são escassos e possuem efeitos limitados. Essa escassez nos obriga a agir [4]. Também é fato que, ao agirmos, buscamos naquele instante satisfazer sempre – na medida do possível de agir – uma necessidade mais urgentemente desejada.

Ação e escassez também explicitam os fatos de que 1) não alcançamos todos os fins simultaneamente. Portanto, 2) agir sempre envolve escolher. Se agimos para alcançar um fim a, não podemos empregar os mesmos meios da ação de a para alcançar um fim excludente b [5]. Portanto, ao agir, o agente demonstra qual é o fim mais urgente a ser atingido naquele momento. Demonstra uma preferência pelo fim buscado – ao agir – sobre outros fins que foram rejeitados, i.e., que passaram a ser impossibilitados de serem alcançados naquele instante. Assim, ações e respectivos fins podem ser categorizados em números ordinais, correspondendo as preferências do agente. Se ajo em função de a, traduz-se que b, e outras demais possibilidades de ações e fins buscados, como menos desejáveis que o primeiro.

Se agir significa escolher empregar meios para realizar fins – mesmo que esses meios sejam, no mínimo, tempo e energia –, ao mesmo tempo em que significa buscar uma satisfação maior, a troca – enquanto uma ação livre – parte dos mesmos princípios. Quando um bem econômico – seja dinheiro, mercadoria ou serviço – é trocado, troca-o, visando o efeito em um resultado futuro, advindo dessa ação [6]. Pode-se concluir que trocar é empregar certos meios, substituindo-os, para atingir um estágio maior de satisfação. Escolhe-se a situação posterior à situação anterior a troca. Prefere o que será recebido em retorno, em contraste ao que possuía anteriormente.

Dados tais fatores, percebe-se um dos erros mais graves dos economistas clássicos – que deu brechas às abominações marxistas e socialistas em geral. Diferente do que se dizia, o mercado, enquanto constituído de diversas trocas voluntariamente feitas – mantidas inalteradas as demais circunstâncias – não é, nem em um “modelo ideal”, um “jogo de soma zero”. Não se troca – e nem busca trocar – um bem por outro equivalente, mas sim por um mais intensamente desejado, i.e., de maior preferência em uma escala de ordem.

É, naturalmente, uma rede de ações livres, em que indivíduos, como em toda e qualquer ação, busca trazer uma situação preferível à situação anterior. Uma “tecnologia” dada pela razão humana, que através da percepção e preferência sobre as benesses da cooperação e da divisão de trabalho [7], constantemente amplia a satisfação de seus participantes, livrando-os de seus desconfortos.

Atribuição de valores:

            Os economistas clássicos, por mais que estivessem intuitivamente precisos em diversas teorias, falharam na busca do estabelecimento de uma teoria do valor. A teoria de mais destaque foi a teoria do valor-trabalho [8], que teve grande influência sobre os tratados de Smith, Ricardo e, posteriormente, serviu de ponto base para os diversos erros marxistas.

Um dos mais conhecidos questionamentos sobre a teoria do valor-trabalho foi feito pelo próprio Adam Smith. Ficou conhecido como “paradoxo da água e do diamante”. Smith questionou o baixo valor da água em relação à sua necessidade fundamental para a humanidade em diversos aspectos. Contrastou com o diamante, material muito menos “útil”, que ainda assim possuía um valor exorbitante [9].

A resposta dada de “oferta e demanda” de fato esteve correta. Mas assim como toda a economia em si, tal investigação não deve ser dada à dados empíricos em função de comprovar ou rejeitar uma teoria. Também não é através deles que a lei de oferta e demanda possui sustentação. Pelo contrário, deve-se recorrer à dedução, o que foi feito por Menger, Jevons e Walras. Os marxistas, na tentativa de manter-se em seu baú de flatus vocis, travestidos de revelação quase religiosa, divergem entre continuar chamando a economia, assim como a “oferta e demanda” e a teoria do valor subjetivo – que veio a desmantelar teoria do valor-trabalho, e consequentemente, outras teorias marxistas – de invenções burguesas; e apontar a escassez como um fator não natural da realidade, mas como uma causa induzida pelos capitalistas.

Em busca fixar o valor objetivo e explicar os preços aparentemente “paradoxais”, estabeleceram as coisas como, objetivamente, “pertencentes de classes” para a realização de determinadas funções, o que levou a erros conceituais – não só dos marxistas. Uma maçã, que seria de uma “classe dos alimentos”, teria seu valor de uso – diferente de seu valor-trabalho – maior que o valor de uso de um simples relógio, por exemplo. Ainda assim, nem mesmo o paradoxo do valor seria resolvido. A separação entre valor de uso e valor-trabalho mantinham-se inadequadas por si. Consequentemente, continuavam inadequadas em conjunto.

A explicação dada por Menger entra em perfeita conformação com a praxeologia. Um bem econômico, em termos praxeológicos, é um meio para alcançar um fim. Porém, não há um fim predeterminado sobre os bens, que os transformem objetivamente em meios. Também não estão constituídos nos átomos dos recursos, os seus valores ou utilidades. Quem atribui o fim ao recurso, transformando-o em um bem econômico, dando-o a função de um meio, é o indivíduo que age.

O agente, i.e., o indivíduo, valoriza-o ao atribuí-lo um uso. Tal atribuição só é possível enquanto há a expectativa de que esse algo pode ser usado como um meio para alcançar um fim valorizado. Uma laranja não necessariamente servirá para matar a fome, ou a sede. Pode-se usá-la com outros propósitos. O mesmo pode ocorrer com qualquer outro bem tangível, como uma casa, ou intangível, como uma informação específica.

Outro exemplo, devo ao libertário Raphaël Lima: se um avaliador imobiliário – e aqui acrescento que esse avaliador possa ser o melhor, ou então que fossem todos avaliadores existentes agindo em perfeita concordância – atribui a uma casa em um valor milionário. Se ninguém a compraria sobre tal preço ou valor, assim como, simultaneamente, seu atual dono a venderia, ou trocaria por menos; ela realmente possui tal valor? De mesma forma, nada vale uma nota de real, se ninguém o considerar como uma moeda de troca.

Como afirmado anteriormente, valores são dados a partir dos fins que o meio valorado pode alcançar. Porém, essas três percepções – valor, meio e fim – são atribuições subjetivas ao homem agente, não por um parâmetro mensurável, fixo e imutável, dado na natureza, ou conspirado pela burguesia.

Para que se aja, em busca de alcançar determinado fim mais urgentemente desejado, suponhamos o uso um determinado meio. Uma vez que o fim dado ao meio é plenamente alcançado, mantidas inalteradas as demais circunstâncias, suponhamos que o recurso não tenha se exaurido. Se ocorre a) e ainda há outras menos urgentes [10] utilidades para esse recurso, ele possuirá um valor menor agora, derivado das expectativas de seu novo uso. Por outro lado, se ocorre b) em que não mais absolutamente nenhuma utilidade, ou expectativa de uso futuro para o recurso em questão, seu valor atribuído será nulo. A mutabilidade constante existente nos valores dados, na medida em que agimos [11] ou mudamos nossas percepções, são mais uma comprovação de que um valor objetivo e determinado não corresponde com a realidade.

Por fim, um valor atribuído não é composto objetivamente por números cardinais, não sendo mensurável.  Os termos quantitativos, i.e., preços, dados em cálculos econômicos, passam a aparecer em um sistema de mercado complexo, que conta com o uso de uma moeda [12]. Da mesma forma que ações demonstram, aprioristicamente, escolhas, valores traduzem-se em graus de intensidade pelo quanto satisfazem uma necessidade mais ou menos urgente de um agente. Traduzem sobre meios e fins como mais – ou menos – desejáveis em relação aos respectivos demais [13].

Preferência temporal em níveis: o balanceamento das ações

Se agimos para chegar a um estado de satisfação maior – caso contrário não agiríamos –, nota-se que preferimos possuir mais bens a possuir menos bens, pois assim os desconfortos serão menores. Se buscamos satisfazer a necessidade mais urgentemente visada – caso contrário, agiríamos de forma diferente -, podemos concluir que ação leva em consideração o tempo de causa e efeito da ação, i.e., o tempo para chegar ao fim desejado. Isto porque não temos todo o tempo ao nosso dispor. Para nós, o tempo é um recurso escasso.

O tempo também é um fator levado em consideração em relação ao quanto o efeito “satisfatório” de um fim durará. Por fim, valorizaremos e preferiremos que os bens sejam obtidos o mais rapidamente possível, ao invés de recebe-los depois. Da mesma forma, preferiremos que os bens durem por mais tempo, ou de outras formas, nos provenham uma maior satisfação.

Se possuíssemos somente o desejo de atender urgências a curto prazo, tenderíamos a optar exclusivamente pelos bens de primeira ordem, i.e., bens de consumo, de curto prazo em causa, mesmo que estes impliquem em curto e menor efeito. Qualquer indivíduo seria unicamente consumista, de preferência temporal extremamente elevada [14]. Queimaria todos os seus recursos em troca de recompensas imediatas. Sempre consumindo recursos, nunca poupando ou investindo. Todo e qualquer homem agente simplesmente tomaria, quase que exclusivamente, decisões inimagináveis.

Por outro lado, se fosse exclusividade a preferência por mais bens a menos bens, o efeito seria exatamente o oposto. Uma vez que os investimentos e os bens de longo prazo, ou bens de ordem elevada – na linguagem econômica – trazem, em via de regra, mais bens – a um prazo maior – do que os de consumo e curto prazo, optaríamos exclusivamente pela poupança, nunca ao gasto. Sempre poupando, nunca consumindo, nem investindo. A preferência temporal da sociedade seria extremamente baixa ou nula.

Esses dois aspectos da ação humana, quando relacionados entre bens de diferente temporalidade, ou de diferente intensidade em efeito, se contrapõem. Dão capacidade ao que é chamado de preferência temporal. A preferência temporal [15] age como um balanceamento entre poupança, investimento – a longo prazo – e puro consumo. Nas palavras de Hans H. Hoppe, ela “determina ao mesmo tempo o tamanho do prêmio que apresentam os bens presentes em relação aos bens futuros e o montante de poupança e de investimento” [16] e vice-versa. Determina, aponta Hoppe, o montante de poupança e investimento. Vale ressaltar, também por ele, é que, na medida em que necessitamos consumir algum recurso – além de que eventuais anseios por consumo aparecem-, por mais que a preferência temporal seja baixa, jamais alcançará um “zero absoluto”.

Como toda ação, agir de forma a poupar recursos para um consumo mais tardio, requer a expectativa de uma recompensa mais satisfatória do que teria ao agir de forma diferente, i.e., consumir ao invés de poupar. Não deixaríamos para consumir depois, um recurso mais urgentemente necessário, sem que se esperasse uma recompensa maior ao optar por essa escolha.

Sendo preferência temporal a representação da escolha – ou não escolha – pela poupança, em relação ao consumo, que parte da ação individual, percebe-se: ao notar a diferença de julgamentos de valor entre indivíduos, e a inconstância na atribuição de valor subjetivo de cada um; que a preferência temporal é 1) igualmente inconstante para cada indivíduo e 2) igualmente, em relação aos valores subjetivos, diferente entre diversos indivíduos.

Na prática, indivíduos pouparão ou consumirão, mais ou menos recursos, em diferentes períodos de suas vidas [17]. Da mesma forma, indivíduos diferentes pouparão ou consumirão, mais ou menos recursos, de formas diferentes entre si. Isto porque, de fato, há com frequência casos em que poupar recursos se torna uma opção viável, uma vez que pode trazer resultados mais desejáveis a longo prazo. Cabe ao agente optar entre gastar ou guardar.

Dadas essas diferenças, nota-se que a preferência temporal pode ser percebida em graus diferentes. A poupança se traduz em uma queda de preferência temporal. Sendo assim, preferência temporal baixa é a frequente escolha por guardar, de forma a – buscar – ser mais bem recompensado futuramente, via um consumo futuro do recurso em questão, ou até mesmo através do investimento a médio ou longo prazo.

Por outro lado, o consumo imediato de um recurso, em busca de uma satisfação mais urgente, enquanto abdica de uma satisfação, ou recompensa, expressivamente superior no futuro, é mostrada como uma elevação na preferência temporal. Um indivíduo de preferência temporal alta é aquele que busca essa forma de recompensa a curto prazo com maior frequência.

 

[1]: MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010; HOPPE, H. H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013, esp. Cap. 6; HOPPE, H. H. A Ciência Econômica e o Método Austríaco, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010. GARCIA, P. Hoppe e a Ciência Econômica de Mises. Disponível em: <http://voxbrasilis.com/hoppe-e-a-base-economica-de-mises/> Acesso em: 18 de julho de 2018.

[2]: ROTHBARD, M. N. O Individualismo Metodológico. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1253> Acesso em: 18 de julho de 2018. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 2..

[3]: JEVONS, Stanley. A Teoria da Economia Política & MENGER, Carl. Princípios da Economia Política, São Paulo: Editora Abril, 1983. Disponível em: <http://portalconservador.com/livros/Carl-Menger-Principios-de-Economia-Politica.pdf> Acesso em: 19 de julho de 2018. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 4.

[4]: GARCIA, P. Fundamentos da Ética Libertária: Escassez, ação e a origem dos conflitos. Disponível em: < http://www.culturalibertaria.com/2018/04/fundamentos-da-etica-libertaria-por.html> Acesso em: 19 de julho de 2018. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 1.

[5]: Determinados fins não podem ser alcançados simultaneamente, pois são excludentes entre si, já que utilizam de um mesmo meio, de formas lógica ou fisicamente impossíveis de serem convergentes. Um exemplo é virar a cabeça para a esquerda e para a direita simultaneamente.

[6]: Seja receber em dinheiro, serviço, mercadoria, um retorno em favor, ou a simples satisfação de dar algo.

[7]: MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 8. A Teoria da Exploração do Socialismo Comunismo / Eugen von Böhm-Bawerk. — São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. 205p.

[8]: HORWITZ, Steve. A teoria do valor-trabalho ainda assombra a humanidade e segue causando estragos. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2540> Acesso em: 19 de julho de 2018

[9]: SMITH, A. (1985) A Riqueza das Nações: investigação sobre sua natureza e suas causas, São Paulo, Nova Cultural, 2ª edição.

[10]: As necessidades, antes menos urgentes, que atribuiu uma utilidade ao recurso, podem ser mais ou menos valorizadas após uma mudança na escala ordinal de valores.

[11]: Se agimos e alcançamos plenamente um fim considerado urgente, esse fim a ser alcançado já não é mais algo a ser buscado. Portanto, agir, utilizar de recursos em geral, e até mesmo alcançar fins, são situações constantes que alteram frequentemente nossas valorações e preferências. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 4

[12]: MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 12

[13]: Por fim, nem toda noção de valor de uso objetivo é algo a ser rejeitado. Um conceito adequado de valor de uso objetivo é sobre a capacidade de uso de um meio para atingir, com determinada eficiência, um fim hipotético estabelecido de forma específica.

[14]: Ver adiante.

[15]: HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: o Deus que falhou, São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2014. Cap. 1. MISES, L. v. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 5. Teoria positiva do capital / Eugen von Böhm-Bawerk. — Nova Cultural. 1986. (Os economistas)

[16]: HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: o Deus que falhou, São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2014. P.32

[17]: HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: o Deus que falhou, São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2014. P.34-39.

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